Cláudia, minha
sobrinha, nasceu quando eu ainda não era mãe. Ela virou meu xodó, meu
treinamento intensivo para maternidade. Logo que iniciou o primário
arrumou sua primeira grande amiga, aquela que a gente decreta como a
melhor amiga e quer exclusividade. Carla foi à eleita e retribuiu de cara
o título, nessa época não temos a menor idéia da responsabilidade em ser
number one na vida de alguém.
Numa sexta-feira fui apanhá-la na escola e ela entrou no carro quietinha,
amuada, com a boca torta de quem vai chorar. Percebi sua tristeza e tentei
saber o motivo, mas o silêncio dos inocentes foi a eloqüente resposta.
Deixei correr, sabia que na hora certa viria abaixo o motivo. Chegando em
casa ela não quis almoçar e agora não era mais só a boquinha que estava
fora do lugar. Ela toda, todinha desconjuntada. Não resisti e fiquei
provocando seu desabafo com pequenas perguntas. Ela destravou a língua.
- Tia, amanhã é o
aniversário da Carla, todo mundo já ganhou convite menos eu. Logo eu, a
melhor amiga, esquecida!
- De repente ela quis convidar você de forma especial, pelo telefone, na
intimidade a dois...
- Não, eu fui abandonada e tem mais, não falo nunca mais com ela, nunca
mais (declarou taxativa).
Esta foi
à primeira das medidas da lista provisória que tomou contra a ex-amiga.
Trocar de lugar, de turma, de repente até chamá-la de gorda, fato que
machuca mais que proibição de TV para quem tem uns quilos extras. Gorda!
Na infância, na juventude, na idade adulta, na vida em geral é muito mais
ofensivo do que ser chamada de filha da puta, nesse atual reinado
da astenia, anorexia, bulimia.
Não quis intervir de imediato, elas que se resolvessem e também achei que
as medidas não seriam cumpridas. Talvez pela minha experiência com os
governantes, que sempre tomam medidas provisórias que não dão em porra
nenhuma, ou até com as minhas próprias medidas afetivas de saneamento, que
sempre acabam no primeiro beijo. As governamentais? No primeiro euro.
Sábado chegou e ela sem convite! Seu rosto era um misto de choro e raiva.
Dava dó olhar pra ela. Resolvi falar sério sobre convivência com uma
menininha de sete anos. Complicado, mas necessário. Busquei chegar ao seu
nível explicando que todos nós temos um diabinho e um anjinho que buzinam
em nossos ouvidos. Que o diabo provavelmente vai avisar que Carla é
inimiga, que deve procurar uma amiga verdadeira e castigar a maldita com
muito desprezo. Já o anjo vai afirmar que ela sem querer esqueceu ou
deixou para depois e não deu tempo. Suplicará que dê uma nova chance, ou
mais, que seja franca com a menina. Que ligue e pergunte o motivo.
Sei que para uma criança é muito difícil tomar a atitude mais sensata,
porém, tenho convicção que é mais fácil para elas abrirem o coração do que
para nós adultos, que sempre julgamos de antemão e condenamos sem a menor
piedade. Aliás, ficar na bronca parece ser “um barato”, pois vejo esta
prática ser bem difundida. Ficar.Puta.Com, daria um site com
recorde de visitas.
Cláudia, tamanha à
vontade de ir a festa, escolheu o conselho do anjinho. Ligou para desejar
um péssimo feliz
aniversário para a “ex” amiga. Aos pouquinhos, na conversa, começou
a brotar um sorriso no cantinho da boca. Ela pediu um momento e saiu
correndo atrás da mochila da escola. Retornou com o convite na mão todo
manchado de chocolate. Depois de juras de amor para a ex-inimiga, antiga e
futura amiga, desligou pulando de felicidade. Ao ver meu olhar curioso
percebeu que eu merecia saber o motivo da mudança.
- Eu sou tão especial, que meu convite estava dentro de um bombom que
ganhei dela na terça passada. Só que eu não abri, achei que o chocolate
tava com cara de velho, mexido.
Nada falei. Dizer o quê? Sorri e a chamei para ver meu pequeno baú de
recordações (aos vinte e dois ainda era mínimo). Pedi que me ajudasse a
abrir alguns bilhetes não respondidos, número de telefones que nunca
disquei, presentes que ganhei na vida e os deixei de lado, por causa da
embalagem com cara de mexida.
- Veja a quantidade de convites para amizade que não retribui, pois o
diabinho falou mais alto.
Acho que não ela entendeu muito na hora, mas um pouco sempre fica.
Já fui julgada por alguns como melosa demais, pois até hoje busco ler um
pouquinho mais a alma do meu ex, atual, futuro amigo, que está escondida
em alguma embalagem com ou sem laço bonito. Está valendo abri-las. Que
solidão deve bater nos que não se dão ao trabalho de desembrulhar nada.
Perdem deliciosos bombons de afeto, que engordam só o coração, um liberto
da balança. Que venham caixas repletas, sou compulsiva em amor. Quero
ficar obesa dele.
(23 de setembro/2006)
CooJornal no 495