
07/10/2006
Ano 10 - Número 497
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Em busca da palavra certa
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Em
se tratando do mundo virtual, necessário se faz a busca da palavra certa,
para dar a exata noção da mensagem que se enviou. Não contamos com os
recursos do “ao vivo”, não temos o gestual, o sorriso que ameniza a dureza
de uma palavra, ou aquela piscada de olho que desmente a seriedade do que
foi dito — afinal não era tão sério.
Essa busca, por vezes, exaure quem escreve, pois sempre fica a sensação de
dúvida: “será que meu destinatário vai sacar exatamente o que eu quis
dizer?”
Diferenças regionais devem ser levadas em conta. A palavra sacana, por
exemplo, aqui no Rio, difere de outros lugares. Lembro bem que um amigo do
interior dos confins ficou ofendidíssimo com um “sacana” meu. Lá, sacana
só é usado para atividades sexuais.
E quando se trata de sexos opostos? Preocupados ficamos em demonstrar ao
poeta homem que o beijo enviado era um beijo amigo, beijo sem assédio. Ele
idem... Estou me lembrando de um poeta muito lindo, que sempre que o
formatava enviava um obrigado, um recado... “Eu te adoro”, e no final...
“Cordiais saudações”. Necessitava demonstrar respeito.
E se queremos ajudar alguém, avisando de um erro? Nossa! Mede-se vinte
vezes a forma de dizer. Inúmeras vezes a franqueza é vista como
grosseria... (vista quer dizer lida). Mais vezes ainda, o elogio soa como
puxa-saquismo.
Ao vivo, permito-me ouvir Caetano vinte vezes, mas no virtual não posso
mandar sequer quatro vezes seguidas um poema, pois soa como algo estranho.
Algo do tipo... “esse santo quer reza”.
Da mesma forma que aqui o “eu te adoro” sai rápido, a mágoa também surge
com muita velocidade. Ama-se e magoa-se em ritmo de Fórmula-1. Sentimentos
contraditórios surgem a todo momento. E-mails não respondidos levam a
milhares de interpretações. Afinal, eu enviei um elogio e ninguém disse
nada... Afinal, eu demonstrei carinho e nunca soube se foi recebido...
Afinal... Afinal! O meu poema lindo não foi lido! (frustração) O site com
poucas visitas! Puxa, deu um trabalhão!
Ainda existem os fantasmas — aqueles que somem sem avisar e aparecem da
mesma forma — que me deixam angustiada. Devem te deixar também. Não me
refiro àqueles que agem de má-fé no virtual. Os fantasmas loucos que criam
personagens por não conseguirem suportar a si próprios, que se
autoboicotam. Esses, rapidamente percebemos e não possuem valia.
Ignoro-os.
Refiro-me a nós, pessoas comuns, vivas e ativas, educadas, de bom senso,
inteligentes e elegantes no escrever. Na maioria de boa índole, mas de
particularidades próprias, individualidades por vezes discutíveis por
outrem. Normais para nós mesmos, diferentes para quem lê.
Deves sentir o que sinto. Dúvidas e expectativas. Quais as palavras que
vão realmente exprimir meus reais sentimentos?
Agora, neste momento, me questiono... como será interpretado o que acabei
de escrever?
(07 de outubro/2006)
CooJornal no 497
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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