
14/10/2006
Ano 10 - Número 498
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Décima Divisão
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Apesar de ser exercício de cidadania, a ação de se deslocar para ir votar,
implica em procurar uma vaga pro carro, enfrentar fila, ouvir
repetidamente o som das bocas tendenciosas, falando bem alto seus secretos
votos e o pior de tudo, exercer cidadania quando nem mais cidadão se é.
Seria um saco se não fosse a surpresa de rever conhecidos varridos da vida
do dia-a-dia, por mudanças de endereços da zona eleitoral. A minha
permanece a mesma e de muitos do meu passado também, pois alguns na troca
viraram mesários e eu fiquei com o grilo de entrar nessa. Nada contra, mas
to fora dessa mesa! Minha zona permanece a da infância, daí quando vou
votar, vira realmente a maior zona! Revejo sempre muita gente de minha
história, algumas paqueras da adolescência, grandes paixões juvenis,
desafetos que criei por conta da puberdade e que recrio atualmente como
afeto, por conta da maturidade.
Nesta última, logo na entrada do meu saudoso colégio, dei de cara com seu
Arlindo, conhecido como "seu Lindo", que foi meu inspetor escolar, sujeito
educado e risonho, nunca temido, sempre querido.
Adorava futebol, torcia muito, mas seu time vivia na segunda divisão, até
chegou a cair para a terceira. Recordei que nós adorávamos brincar com
ele, tirar aquela casquinha, a graça naquela época não era porrada entre
torcidas, era só zoar entre amigos. Ele fingia aborrecimento, afirmava que
não ia livrar a cara de quem estivesse colando, mas acabava em pizza,
prevalecia seu eterno bom humor. Pessoa sofrida, mas de bem com a vida.
Durante a nossa conversa neste pleito, observávamos os que chegavam com
saudades; muitos pararam para brincar com nosso antigo fiscal camarada,
até parecia nossa hora de recreio. De repente aconteceu a entrada triunfal
da Débora, antiga colega, que na época vivia com bastante dificuldade e
deixava transparecer vergonha de sua condição, apesar do colégio ser
público. Antigamente estes é que eram os melhores, gratuidade não
significava mediocridade de ensino, a grande maioria dos alunos tinha uma
boa condição financeira. Débora virou a predileta do Lindo, talvez por ele
se encontrar nas dificuldades dela. Foi ele que a socializou com a galera
e a protegia de forma descarada. Fez dela a rainha da primavera no nosso
ginasial.
Neste domingo vi o seu olhar triunfal ao vê-la entrar tão resolvida e
arrumada. Olhar de quem está colhendo as flores que plantou com carinho.
Ela nem piscou, passou batidinha por nós como se nunca o tivesse visto na
vida, com o jeito de "emergente". Reparei a grande decepção do velho
inspetor e na tentativa de quebrar aquele clima, perguntei pelo seu time e
se ficava realmente injuriado com nossa chacota pueril.
— Aquela brincadeira de gozar o meu time? Nunca doeu, pois eu sempre tive
convicção dele no topo ou no chão. Quando minha fé é colocada na segunda
divisão como foi agora, aí sim que dói demais. Torcer errado é que é a
grande merda na vida.
(14 de outubro/2006)
CooJornal no 498
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net
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