Ele caminhava na
praia diariamente. Parecidíssimo com Sean Connery, até chegamos a
pensar que fosse o próprio de férias no RJ. Enxutérrimo com um bronze de
deixar qualquer mulher tonta. Um chapéu panamá que fala sério! Setenta
aninhos, ou sei lá, nem queríamos saber. "Tesãormônios" ambulante
que abundava a orla, daqueles tesouros “Intocáveis”, também ganhou o Oscar
nesse.
Ele sempre parava em
frente ao local onde nós fazíamos exercícios de consciência corporal. Devo
dizer que ficávamos olhando pra ele e no final o que fazíamos mesmo era
inconsciência temporal. Viajávamos no passado imaginando aquela coisa
linda aos quarenta, aos trinta, e tentando nos virar nele. Faustão
inventou essa! Te vira nos trinta! Acho que ele sabia o poder que
sempre exerceu nas mulheres. Parado como uma Rocha, prestava
atenção aos nossos movimentos, mas com um jeito satânico de quem
não vai dizer sim. Apenas No!
Minha performance
ficou show. Acho que nem a
Michelle Pfeiffer
conseguiu melhor em “‘A casa da Rússia”. Safada vaidade feminina.
- Malha preta fica
bem em louras. Já usei essa? Vermelha é sensual. Cabelo solto ou preso?
Homens adoram mulheres de rabo-de-cavalo. Batom de manhã? Descalça é mais
legal que tênis! Fiz a unha do pé?
Um dia eu olhei pra
ele com o meu olhar "007" e ele acabou por me notar. Sorriu da
minha inquietude curiosa. Um mês entre sorrisos, nenhuma palavra dada. Não
nos aproximamos, apenas aquela paquera silenciosa e muito da gostosa. Nos
vimos todas as terças e quintas, até mesmo quando choveu paca durante o
mês dez de 2003. Nossa professora finalmente (infelizmente!) arrumou para
o mês onze, um espaço na
Universidade
da Cidade para continuarmos o laboratório corporal.
No último dia em que
fui ao bat local na bat hora, passei bem perto dele pra
sentir o cheiro do Sir.
Mais um dado para ficar na memória. Afinal era adeus, pois situações assim
não se repetem. Esses amores malucos de férias, de metrô, de uma voz que
dá alô, de um verso, de um esbarrão, de imaginar uma deliciosa viagem num
Expresso Oriente, são amores temporários, sequer é traição.
Tempero ligeiro que
se coloca ou não no prato do dia-a-dia. Deliciosamente desnecessário, mas
orégano é importantíssimo na pizza.
Supérfluos momentos
de encantamento que todo e qualquer coração merece.
Ficou na minha
memória como “Caçada ao Outubro Vermelho".
Ele nunca soube "O Nome da Rosa".
(28 de outubro/2006)
CooJornal no 500