25/11/2006
Ano 10 - Número 504

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena



AD

 

Chico do paletó surrado, nunca deixou de usá-lo, todos os fins de tardes parava no bar da esquina. Aos poucos ia se reunindo um pequeno grupo para ouvir seus "causos" de infância nos confins, suas solitárias paqueradas depois da viuvez, os peixes pescados por alguém que nunca viu o mar, as mulheres que amou para valer, o Deus com quem sempre conversou. Duvidávamos daquelas histórias, mas admirávamos seu repertório, ora cômico, ora malandro, mas sempre poético. Nunca nada aconteceu sem lua cheia e sem mulher bonita! É fantástica essa poesia criada no asfalto por alguém que ganha um salário e ainda consegue fazer e dar graça por uma batida de limão. É de criação? Ele foi criado tomando banho de cachoeira e se esbaldou no melado de cana. Nós só em chuveiro e correndo atrás de grana.
Sociedade Zero Cal.

Em setembro, início da primavera, contou-nos com naturalidade:

- Ontem eu morri, deixei meu corpo e viajei pro céu, uma viagem rápida.
Chegando lá falei com Ele que não era esse o nosso combinado, eu ainda tinha muito por fazer na Terra. Levar meu filho de volta para roça, conversar com os amigos do bar, ter aquela madame loura ao som de um piano e bebendo um uísque doze anos, aquele que os ricos tanto proclamam, colocar alguma poesia no papel, registrar para ter direito à paternidade. Não podia deixar minha obra incompleta, jogada por aí. Deus então me disse uma coisa e me mandou voltar para dar o aviso à todos: - A obra dele perdeu a autoria. Viramos AD.

Na metade desse mês, seu Chico partiu numa noite de lua cheia. Foi sem drama, já tinha levado sua cria de volta pro interior, já tinha provado a loura com Chivas. E a poesia? Assinada no seu dia-a-dia. Mas não foi isso que o fez fechar bonito seu ciclo de vida. O que ele não fez é o que tornou sua obra quase perfeita. Não foram de sua autoria o muro de Berlim, a explosão das Torres, nem o choro desenganado de alguma mulher. A verdadeira poesia está em não destruir a DELE. A Terra tem um criador. Indicar O Jardineiro Fiel ou Cidade de Deus para o Oscar é tentar despistar o roubo dos direitos autorais. Quem dera tivéssemos virado ET


AD: Autor desconhecido.



(25
de novembro/2006)
CooJornal no 504


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net