06/01/2007
Ano 10 - Número 510

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena


 

506
 

 

Meu sonho de consumo no início da adolescência era ter uma legítima Lewis 506. Não bastava ser jeans, tinha que ser uma 506. Naquela época só em USA ou na Feira da Providência, mas era uma nota preta. Demorei bastante para ter uma, e só ganhei depois de encher muito o saco de meu pai, mesmo assim ele vinculou presente a prêmio. Fazer por merecer. De alguma forma teria que demonstrar que fiz jus ao supérfluo. 

Naquela época eu não entendia os senões de papai, porém em minha casa não existia o tal medo que existe atualmente em traumatizar filho. Fazer todas as vontades para evitar piripaques futuros. Tínhamos que estudar pra caramba. Tínhamos que decorar a tabuada sim. Tínhamos que ler Machado de Assis e outros mais, passar para escola pública, estudar inglês e ponto final. Papai não era um ditador, pelo contrário, visto que foi afastado da Marinha no período da ditadura, por ser simpatizante do PC. Ele tinha diálogo conosco, mas não ficava especulando Freud e psicanálise. 

Segundo seus conceitos, teríamos traumas com ou sem cultura, então que fôssemos fazer analise futuramente, com uma bagagem cultural. Que achássemos a vida seca, mas tendo lido Graciliano Ramos para saber realmente o que significa “Vidas Secas”. Ganhei minha 506 no dia em que escrevi uma carta pro Ziraldo e ele respondeu-me de forma bastante elogiosa. Foi a glória. Para mim o jeans, para ele a carta.
 Curti minha 506 até ela virar um farrapo e jurei que ela nunca viraria pano de chão. Ainda hoje tenho um pedacinho mínimo dela guardado numa caixinha. Quando a casa de meus pais foi vendida este ano, tivemos que esvaziar tudo. 

A estante repleta de livros, papéis e canetas. Como era gostoso ler um livro na rede da varanda, lembrei com alegria que isto jamais foi castigo.
Numa gaveta encontrei uma caixa de meu pai, com a carta que me levou ao prêmio sonhado. Também ele tinha guardado com cuidado e estava intacta, inteira, sem rasgo ou remendo. Ele eternamente estará me ensinando a guardar meus verdadeiros valores.
Andei me questionando porque fiz tanta questão de publicar um livro. Teria sido apenas vaidade? Isto até me fez mal, imaginar-me desta forma tão vaidosa. Afinal sou mais lida no virtual, então não é isso não papai. Valeu o toque! 

A net talvez seja uma 506. Talvez desbote com o tempo, talvez rasgue e restará apenas um pedacinho de meus sonhos salvos num hd.
Quero que meu neto encontre numa caixa meus pensamentos, as memórias do meu tempo, por inteiro. Sem estarem puídos! Talvez seja a melhor herança que deixarei. Levá-lo a gostar de ler livros de papel, prazer que anda tão fora de moda. 

Será que estou mais velha que uma 506




(
06 de janeiro/2007)
CooJornal no 510


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosabpena@br.inter.net