Conheço Marta há mais
ou menos quinze anos. Amizade de porta de escola, pois nossas filhas
fizeram o primário juntas. A escola tinha uma ladeira, que ficou conhecida
como ladeira das lamentações, visto que no local as jovens mães que não
trabalhavam fora faziam suas catarses pessoais. Eu levava minha filhota de
carro, passava voando por ela, mas sempre tinha uma paradinha básica para
um “oi, que chato, tudo se resolverá et cetera e tal.”
Então, fiquei sabendo que Marta fazia doces e salgados para fora direto,
apesar de o marido ter um carrão do ano e a filha ostentar mochilas de
grife caríssimas.
Nunca soube a idade de Marta, nem aproximadamente. Uma mulher indefinida,
cabelos sem viço, onde se percebe uma demão de Koleston passado em casa,
olhos baixos voltados para as pontas dos pés, sorriso apagado e medroso,
pele cheirando a goiabada, corpo que não se sabe o manequim, já que sempre
estava envolto em fartas túnicas de viscose estampadinha, daquelas que se
usa dos trinta aos noventa anos. Não era chegada a conversas e ficava
tímida quando se falava de sexo na ladeira.
Mas Marta fazia as melhores musses do mundo, quiçá do universo. Este fato
nos aproximou, levando-me a ir a sua casa pegar encomendas que eu fazia
quase que semanalmente. Sempre tinha que esperar um pouquinho o embrulho,
os finalmente da encomenda, então tomava um cafezinho na sala. Lá conheci
Arnaldo, maridão dela. Sentado em frente à TV, coçando o saco
literalmente, vendo as Sheilas dos Tchans da vida, chamando-as de gostosas
entre arrotos de cerveja e salgadinhos de tira-gosto que a patroa dele tão
bem fazia.
Algumas vezes peguei-o cochilando com a TV ligada, com um ronco absurdo,
cabeça para baixo, balançando. Marta pedia que ele acordasse, pois tinha
visita, e ele grosseiramente, gritando, dizia que não estava dormindo,
apenas pensando. “Vai enganar quem que tu és Ghandi, que filosofa, grande
pensador?” — meu interior tinha vontade de falar isso.
Nos últimos dois anos, não vi mais o casal. Mudança de endereço minha fez
ficar longe, de modo que não pude mais encomendar quitutes com ela. Não
mais tinham ladeiras, não a vi em feiras, supermercados. Com sinceridade,
nem mais lembrei-me da existência dela, como não me lembro da cor da minha
primeira calcinha. Agora, sutiã a gente não esquece o primeiro!
Há uma semana fui jantar com minha amiga Helena, no Tiziano. Aniversário
dela, e já é tradição tomarmos um vinho neste dia, fazendo a retrospectiva
anual de nossas vidas.
— Rosa, e os calores súbitos, esses quadris que se alargam na menopausa,
essas nossas bocas que não se calam na meia idade?
Ia começar a falar quando vi um casal entrando abraçadinho, olhos nos
olhos, tipo se bastando por si só.
Olhei a mulher e achei que a conhecia de algum lugar. Cabelos ruivos
cintilantes, coroando curvas insinuantes de um manequim quarenta e dois,
envolvido em uma lycra preta. Pele com viço, sorriso silenciosamente
escandaloso de mulher bem-amada.
De tanto olhar, atraí o olhar da pretty woman.
— Rosa, não vai me dizer que esqueceu de mim?
— Marta, quanto tempo. Você está tão diferente!!! — falei demonstrando
minha surpresa indiscreta.
— Pois é, minha amiga, minha vida mudou muito. Arnaldo faleceu de cirrose,
foi dessa para melhor. Uma pena, que Deus o tenha. — E continuou: — Deixa
eu te apresentar ao Henrique!!!
Que Henrique!!!, pensei eu. Choveu legal na horta dela.
Sem saber o que dizer, quem me conhece sabe que muitas vezes falo o que
não devo, pois minha mente vai além, quase disse “que sorte”. Mas falei
apenas o dito de uma propaganda antiga: “O mundo gira e a lusitana roda.”
Ouvi o som da gargalhada de Marta. Sonoro som.
(13 de janeiro/2007)
CooJornal no 511