24/02/2007
Ano 10 - Número 517

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena


 

Era bushiniana!
 

 

Marcelo, filho do faxineiro do meu prédio, é um menino de dez anos muito inteligente. Adoro conversar com ele no eterno vai e vem da pressa.
Na quarta-feira de cinzas nos encontramos e perguntei pelo seu sumiço. Tinha ido passar as férias na casa de seus avós que moram num sítio no interior. Essa era só a primeira de suas novidades. Muito feliz contou que seu pai havia finalmente instalado TV por assinatura.
Motivado pela minha cara curiosa, começou a me contar sobre um programa de arqueologia que havia assistido, onde acharam peças e fósseis de alguns milênios atrás. Maravilhado com tudo que viu, me indagou:
Será que daqui há cinco mil anos, alguém vai achar algum carrinho meu enterrado no quintal? Imagine só que vão pensar:
Nossa! Como as pessoas eram pequenas naquela época. Mais estranho, no entanto, será no sítio do vovô da onde eu acabei de chegar. Lá o lixo é jogado num buraco e depois queimado. Acho que irão falar que os povos antigos faziam ritos satânicos onde queimavam seus pertences.

A criatividade de Marcelo me fez pensar em algumas coisas. A primeira delas bastante séria. Muitas vezes ficam enterrados “tesouros” ou ‘lixos “dentro de nós, que podem ou não vir à tona. Quando desvendados, vem a surpresa! Não é assim que reformulamos conceitos? Isso justifica, pelo menos para mim, grandes decepções e adoráveis deslumbramentos!

As outras conclusões me fizeram rir. Entre elas é que daqui há cinco mil anos seremos julgados como um povinho de merda. Anõezinhos que queimaram não só os seus pertences. Queimaram até a camada que protegia o planeta do sol, num ritual mefistofélico chamado ambição. Morreram todos estorricados na ganância. Não estarão muito longe da verdade!

Será que a pedra era de lascar ou era goma de mascar de um supersuper poderoso homem de ferro, ancestral lá na casa do cacete do Bush?  



(24 de fevereiro/2007)
CooJornal no 517


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net