Marcelo, filho do
faxineiro do meu prédio, é um menino de dez anos muito inteligente. Adoro
conversar com ele no eterno vai e vem da pressa.
Na quarta-feira de cinzas nos encontramos e perguntei pelo seu sumiço.
Tinha ido passar as férias na casa de seus avós que moram num sítio no
interior. Essa era só a primeira de suas novidades. Muito feliz contou que
seu pai havia finalmente instalado TV por assinatura.
Motivado pela minha cara curiosa, começou a me contar sobre um programa de
arqueologia que havia assistido, onde acharam peças e fósseis de alguns
milênios atrás. Maravilhado com tudo que viu, me indagou:
—Será
que daqui há cinco mil anos, alguém vai achar algum carrinho meu enterrado
no quintal? Imagine só que vão pensar:
—
Nossa! Como as pessoas eram pequenas naquela época. Mais estranho, no
entanto, será no sítio do vovô da onde eu acabei de chegar. Lá o lixo é
jogado num buraco e depois queimado. Acho que irão falar que os povos
antigos faziam ritos satânicos onde queimavam seus pertences.
A criatividade de Marcelo me fez pensar em algumas coisas. A primeira
delas bastante séria. Muitas vezes ficam enterrados “tesouros” ou ‘lixos
“dentro de nós, que podem ou não vir à tona. Quando desvendados, vem a
surpresa! Não é assim que reformulamos conceitos? Isso justifica, pelo
menos para mim, grandes decepções e adoráveis deslumbramentos!
As outras conclusões me
fizeram rir. Entre elas é que daqui há cinco mil anos seremos julgados
como um povinho de merda. Anõezinhos que queimaram não só os seus
pertences. Queimaram até a camada que protegia o planeta do sol, num
ritual mefistofélico chamado ambição. Morreram todos estorricados na
ganância. Não estarão muito longe da verdade!
Será que a pedra era de
lascar ou era goma de mascar de um supersuper poderoso homem de
ferro, ancestral lá na casa do cacete do Bush?
(24 de fevereiro/2007)
CooJornal no 517