
24/03/2007
Ano 10 - Número 521
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Porto & Canela
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Minha filha no Carnaval foi para
Diamantina e lá conheceu o Júnior que mora em Timóteo, que não é do
Agnaldo, segundo ele afirmou. Voltou apaixonada e acho que ele idem. Eles
passaram um mês se correspondendo via e-mail, toda santa madrugada no MSN
e a conta do telefone é testemunha do que se chama saudade.
Por fim a urgência dos outros sentidos, tato, olfato e paladar fizeram com
que o rapaz enforcasse uns dias de estudo, ele está fazendo mestrado em
história, e baixasse aqui no RJ. Conheci meu talvez futuro genro no último
fim de semana.
Para não dar um ar de formalidade, não o convidei para minha casa, optei
por marcar um almoço num restaurante à beira-mar.
Fiquei encantada de cara com ele, por não pedir coca-cola, nem batata
frita! Pediu peixe e água mineral. A seguir imaginei sobre o que
falaríamos, acostumada que estou com os meninos daqui que falam
sabecomoéné. Esperei que partisse dele a prosa e ele deu uma largada de
campeão.
Disse o que atualmente mãe não ouve mais.
— Eu me apaixonei por sua filha, pois Deus fez uma reunião dos pintores
renascentistas para traçarem ela. Daí pegou as linhas mais bonitas de cada
um e montou a Carol.
—Você é puxa-saco ou poeta?
— Amo poesia de paixão.
— Mineiro tem realmente essa alma de poeta. São os precursores do
romantismo.
E isso permanece até hoje. Tenho uma amiga mineira com tanto lirismo que
até a cadelinha dela caga versos.
Ele riu com um olhar interrogativo. Então conclui.
—É verdade, juro que sim. A cachorrinha Canela da Líria Porto caga poesia.
Todos caíram na gargalhada achando que era exagero.
Deixei pensarem que era fantasia minha. Não contei o restante que a Liria
havia me contado.
Ela foi ficar com a mãe num lugar que não tinha micro, daí quando surgia
muita inspiração escrevia num papelzinho e guardava num saco.
Quando voltou pra casa deixou o saco aberto perto do micro. Horas depois
foi ver, já tava todo picado e Canela com a boca cheia de poemas.
Perguntei se tinha ficado puta da vida e ela me disse.
— Nada! Se cachorro comeu não devia prestar. Mas sabe que ela deixou um
poeminha quase inteiro?
— Indigesto?
—Não, acho que era a sobremesa. Vou ler para você... Quer?
Foi uma das melhores mouses de chocolate que ouvi na vida.
(24 de março/2007)
CooJornal no 521
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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