
31/03/2007
Ano 10 - Número 522
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Adubando o coração
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Enfim o sol reapareceu depois de vários dias de chuvas finas e miúdas,
daquelas que precedem um vendaval.
Saio de encontro aos raios e vejo na pracinha minha vizinha árvores
caídas, arrancadas desde a raiz. Sentado num dos bancos, uma cabeça baixa,
um menino com cheiro de virgem e olhar de quem está sofrendo de amor pela
primeira vez. Choro miúdo, soluço fino, com o jeito da chuva que precedeu
o vendaval. Sem resistir a minha emoção, pergunto o motivo de suas
lágrimas. Desconversa e murmura baixinho:
— Quantos dias de chuvas finas e, no final, vieram ventos tão fortes que
arrancaram as árvores pela raiz, sem ao menos quebrar um galho. Tombaram
inteiras.
— Veja só como é a natureza: a chuva foi aos poucos molhando a terra,
deixando-a fofa, para que as raízes se soltassem devagarinho, em vez do
vento quebrar alguns galhos, destruir suas folhas. Encantadas, enamoradas
dos jardins caíram intactas.
Nos olhamos nos olhos de forma fixa. Ameacei um sorriso e ele ameaçou
corresponder. Concluo de forma ligeira, já percebendo que a brisa da
esperança começava a substituir o furacão da prematura desilusão:
— Lágrimas não caem em vão, fertilizam o coração. Árvores que tombam desde
da raiz são refincadas na terra úmida e renascem com mais forças. São
árvores bem plantadas, diferentes de galhos que caem secos, galhos de
ocasião que qualquer vento quebra e viram cinzas em alguma lareira
solitária. As sólidas sempre florirão a cada nova primavera da vida.
Eu acredito em ressurreição. É páscoa no coração.
(31 de março/2007)
CooJornal no 522
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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