
07/04/2007
Ano 10 - Número 523
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Primeiro de Abril
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Rio, 1 de abril de qualquer 2000.
Ariovaldo,
A cidade grande é enorme! Estou morando na Rocinha que é um roção e não
tem nadinha de roça. Moro num barraco feio, vazio, alugado e tenho que
subir muitos degraus, mas vejo de longe o mar. Ele é imenso.
Aqui tudo é enorme, mas a lua aí é maior.
Arrumei um emprego de faxineiro num big prédio de apartamentos no Leblon.
O doutor síndico é bacana. Se você não sabe o que é síndico eu digo. É um
cara que mora num edifício, mas manda mais que os outros moradores, porque
manda mais eu ainda não sei lhe dizer, pois todos aqui são doutores, mas
sei que ninguém gosta dele, nem gosta de ficar no lugar dele, apesar de
poder usar os empregados do prédio de graça e o material de limpeza
também.
Ele me contratou e até assinou minha carteira de modo que eu tenha direito
ao benefício do INSS. Louvado seja o doutor. Ele desconta um tanto do
salário que ganho pro tal prêmio, que eu ainda não sei qual é, porém ele
afirma que é muito grande.
Aqui tudo é enorme, mas a lua aí é maior.
Semana passada ele mandou eu começar a lavar o carro dele depois que
lavasse as escadas e ainda vai me dar cinco reais por fora todo final de
mês.
O doutor é bem bacana. Esse doutor não é o que anda de branco e cuida das
feridas. Esse é o doutor que anda de preto e cuida das leis. Ele prometeu
arrumar uma vaga na escola pública pro Juninho de forma que eu não pague
essa escola pública. Um homem de um grande coração.
Aqui tudo é enorme, mas a lua aí é maior.
Noutro dia viu que Marieta tá de bucho cheio e disse que também vai dar um
jeito pra ela ter neném num hospital do tal benefício que eu pago, porém
não garantia que tivesse algum doutor de branco pra atender Marieta, pois
os de branco vivem de greve, sem trabalhar, mas ganham da mesma forma.
Antes que eu perguntasse por que os de preto não fazem nada pro outros
trabalharem, ele foi logo dizendo que aqui é uma cidade sem lei, daí eu
ter descoberto porque ele só trabalha dois dias na semana. Achei muito
legal ele ter conversado comigo. Me deu até um boné velho, pois ele tem
uma coleção imensa deles. O doutor é superbacana.
Aqui tudo é enorme, mas a lua aí é maior.
Ontem ele deixou o Juninho entrar um bocadinho no carro dele, mas sem pôr
a mão em nada. Vai que o menino, sem querer, suja aquela lindeza! Prometeu
dar pra ele as bexigas que sobrarem da festa da Marianne, caçulinha dele,
desde que a gente as assopre de modo bem ligeirinho. Ainda bem que não
fumo mais, assim encho correndo, como todos fazem tudo por estes lados.
Até a pressa é gigante.
Aqui tudo é enorme, mas a lua aí é maior.
Não volto tão cedo, pois quando eu completar sessenta anos, daqui a
trinta, não pago mais condução, tenho vacina de gripe gratuita, aliás,
aqui pego toda hora coisa que nunca tive, mas poderei comprar remédio por
um real. Fui informado por ele. O doutor é hiperbacana.
Acertei na sorte grande.
Aqui tudo é enorme, mas a lua aí é sempre maior.
Bilzão
(07 de abril/2007)
CooJornal no 523
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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