21/04/2007
Ano 10 - Número 525

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena

 

À Bonnard, le bonheur”
 

 

 

 

(L’ ENFANT AU PÂTÉ DE SABLE),
1894
Pierre Bonnard (1867-1947)

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando...
Pedro Pedreiro
Chico Buarque 1965


Pedro (Pierre) sempre foi apaixonado pelo que fez. Apaixonados são portadores da síndrome da urgência, não conseguem guardar um beijo, um verso, uma pincelada para amanhã. Tem que ser já! Agora!

E ainda se questionam: - Por que não foi ontem?

Pedro (Pierre) pintava tudo que via da forma que sentia, mas sem intenção proposital de transgressão às normas estabelecidas como arte. Simplesmente inovou de acordo com o que o tempo em que vivia, foi um dos precursores da Art Nouveau. Não fazia rabiscos sem formas, desenhava e pintava o que seu olhar captava. Olho aberto para o novo sem fechar para o antigo.

Pedro (Pierre) se expunha e se expôs, seu direito e avesso, aos mais próximos e ao mundo. Fez isso até a morte. Mal acabava de pintar uma tela já a levava para rua e a chamava de a mais bela. Em muitas faltavam detalhes que não comprometiam o todo, mas para os experts em arte, sem dúvida, um erro.

Certa vez ouviu de um perfeccionista:

—A pressa é inimiga da perfeição.

Refutou na hora:

— A calma é inimiga da criação, porque na realidade você nunca acha que está pronto. Tem uma hora que você coloca um ponto final para não ficar maluco. Não quero nunca olhar para trás e perguntar-me: "Por que eu não fiz isso? Por que não fiz aquilo? Não quero culpar o tempo”.

Consta na biografia de Pierre Bonnard que ele ia com seus pincéis escondidos para o museu onde estavam suas obras expostas. Quando o vigia não estava olhando, ele dava uma pincelada e corrigia trabalhos de até dez anos atrás. Feliz porque tinha exposto, jamais por desgosto. As correções ninguém notou ou comentou, apenas os erros foram sinalizados.

Chico Buarque narrou esse fato numa entrevista para a folha de São Paulo, quando lançou seu livro Estorvo e não foi bem aceito por alguns, que acharam precoce ele virar escritor. Afirmou no final do interview. “— Já basta o meu Pedro que teve que deixar passar. Eu me identifico perfeitamente com Pierre Bonnard!”
— E eu contigo Chico!

Pedras pelo que fiz serão sempre mais belas, do que flores enfeitando
um túmulo com a lápide:
“Bem que se quis”.

 

(21 de abril/2007)
CooJornal no 525


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net