12/05/2007
Ano 10 - Número 528

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 
Rosa Pena

 

Find myself
(Achar-se)
 

 

 

inspiração/Find myself- Eric Clapton
 

Resolvi ir para Friburgo. Isolar-me por oito dias.

Ivan, meu primo, avisou-me que a casa de lá ainda estava a esmo, sem vizinhos e sem conforto. Isso me deu mais tesão de ir.

Sempre nos feriados vou para o litoral e volto tostada do sol, alegrinha, alheia a tudo, adiando minhas realidades. Desta vez, no entanto, estou querendo achar-me.
Preparo minha mala displicente, colocando algumas malhas e moletons. Não levo maquiagem, nem secador de cabelos.

Faço uma sacola básica de alimentos, com poucas massas congeladas, café, umas latinhas de refrigerante e maçãs.

Capricho na bolsa de cds. Todos do Eric Clapton, e mais alguns de bossa nova. Comprei a trilha sonora de Mulheres Apaixonadas, vou ouvir no caminho.

Livros, apenas dois: “O Canto da Sereia”, do Nelson Motta (não consigo acabar de ler) e “O Clube dos Anjos”, do Veríssimo.

Poucos maços de cigarro, pois vou tentar parar de fumar, pela vigésima vez.

Para fazer contato com a civilização, levo egoisticamente meu celular desligado.

Pego a estrada quarta-feira bem cedinho, lembrando-me das paradas estratégicas que sempre fazia na adolescência. Calculo chegar no máximo às dez horas.

A estrada mudou, alargou e o barzinho do Suíço acabou.

Acho um imenso McDonald’s e, no lugar do meu chocolate quente, como um “McLanche” felicíssimo, ele; eu, irritadíssima!

Chego a Friburgo e vejo o movimento intenso. Fico um pouco alarmada.

A certeza de que verei a alameda de eucaliptos acalma-me.

Acho a alameda, mas não é de eucaliptos. Então, gravei na memória algo que não existe.

Chego a casa. Realmente Ivan foi condescendente chamando-a de sem conforto. A casa está despencando, mais do que eu.

Entro e abro tudo. O cheiro de mofo é forte.
De mofo ou de saudade?

Tiro travesseiros e mantas do armário. Verifico as luzes, ligo a geladeira.

Estou instalada fisicamente. Tenho oito dias para reinstalar minh’alma, que anda perdida, vagando, sonhando com um amor impossível.

Mas isso não magoa, não! Este amor é delicioso!

Minh'alma confessou-me que Deus não comete pecados, mas comete excessos. Quando ele criou meu amado, para mim predestinado, excedeu-se no carinho.

O que realmente entristece é constatar injustiças expressas, que estão maltratando meu corpo, levando-o a ter enxaquecas, insônias, cansaço e ausência de versos.

São tantas gerais ocorrendo no mundo! São algumas específicas e direcionadas ao meu ser e meu viver, que parecem ter o único propósito de matar a poeta que existe dentro de mim.

Daí meu corpo ter resolvido que nestes dias de clausura vai novamente exercer o domínio de minha vida. Vai resgatar minh'alma.

Droga, estou chorando. Meu nariz entupiu. Trouxe ou não o bendito Aturgyl?

Clapton, pare com a melancolia em blues!

Não bebo bebidas alcoólicas, mas vou tomar aquele vinho que está na prateleira. Todo empoeirado como minha vida. O rótulo amarelado como minhas lembranças da infância.

Ele certamente está ali exposto há anos, esperando um olhar mais atento.

Não é um vinho de grife, que delicioso fica envelhecido. É um vinho comum e velho. Nunca deve ter desfilado em altas rodas.

Está ali, parado, acompanhado por um Papai Noel desbotado e encardido. Ambos devem ter composto uma cesta natalina, talvez o único momento de glória de suas vidas.

Mas, hoje, foi visto e de alguma forma será prestigiado. Não deixa de ser um alento.
Abro e tomo um gole. Sobe um calor gostoso.

Que vontade de ver o tamanho da lua.

A lua está menina, crescente como eu.

Acho que ainda não mataram a poeta.



(12 de maio/2007)
CooJornal no 528


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net