
26/05/2007
Ano 11 - Número 530
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
O expresso do meio-dia
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Voltei para rever a
Europa depois de vinte anos. A primeira vez que fui foi na década de
oitenta e fiquei bastante tempo por lá, pois Tuninho, meu marido, estava a
trabalho em Paris e eu rodei por outras cidades. Vivi experiências
fascinantes e jurei que não morreria sem rever ou conhecer alguns lugares
que considero primordiais em meus sonhos em relação ao velho mundo. Lógico
que adorei, porém tive olhos mais maduros para ver o belo e o feio.
Depois de Veneza parti para Roma e como dizem que quem vai tem que ver o
papa, eu fui toda empolgada pra ver o Michelangelo e não o Bento XVI, pois
ele estava por aqui, mas conheci o Vaticano e foi lá que vivi uma das
piores experiências de minha vida pela impotência da situação. Lembrei-me
do filme "O Expresso da Meia-Noite".
Compramos os bilhetes do metrô no qual estavam escritos que possuíam
validade de setenta e cinco minutos para serem reutilizados sem custo
adicional. Guardamos, apesar deu considerar que gastaria horas para
conhecer o local, só a capela Sistina levaria mais que esse tempo. Dei
azar ao guardar.
Tão logo cheguei à Praça de São Pedro vi uma fila imensa e com fome falei
pro meu marido que fôssemos almoçar em algum lugar e voltássemos mais
tarde. Lembramos dos bilhetes e resolvemos comer num lugar diferente e
depois voltaríamos. Havíamos usado apenas quarenta minutos do tempo
permitido.
Entramos na estação e passamos com os bilhetes na mão por uma porta
aberta. Deduzimos que seria por ali. Descemos as escadas e nos deparamos
com dois sujeitos à paisana que solicitaram nossos bilhetes. Entregamos.
Um deles olhou, guardou no bolso e exigiu nossos passaportes. Apresentamos
imediatamente, pois sabemos que em terras estrangeiras esse é nosso
documento oficial. Ele olhou, analisou e segurou firme em suas mãos.
Avisou-nos que estávamos sendo multados em duzentos euros por tentarmos
usar um coletivo pago de forma ilegal. Tentamos explicar a validade de
nossas passagens, mas a partir daquele momento o sujeito não entendia mais
nosso precário italiano, nosso médio espanhol, nosso bom inglês, nosso
perfeito português.
Para nos colocar em pânico sentenciou que nossos passaportes estavam
detidos. Avisei-lhe que não possuíamos essa quantia em mãos, então ele
negociou o valor da multa, baixou para cem euros. Insisti que nada
tínhamos feito de errado e queríamos rever nossos bilhetes. Ele novamente
parou de nos entender, e quanto mais eu falava, mais ele andava para a
parte deserta do subsolo. Vendo que estávamos numa sinuca e imaginando o
que mais poderia nos acontecer comecei a falar alto e subitamente chorei
forte. Tuninho preocupadíssimo comigo, pois sabe que não gasto lágrimas
por pouco, tentava me dizer com os olhos, que pagássemos logo, mas eu
teimosamente ensurdeci em nome da justiça e comecei a andar para perto da
escada que nos levaria à superfície.
Quando eu já estava à beira dela o sujeito mandou que eu parasse, então
avisei que meu coração estava vacilando que eu poderia morrer ali, na
terra mais católica do mundo. Agarrei a mão do meu marido e subimos
correndo para onde tinha um monte de gente. O covarde subiu atrás de nós.
Eu continuei a chorar forte e fui me aproximando dos seguranças do metrô
que me indagaram o que se passava. Contei e o sujeitinho (que era
conhecido dos guardinhas) disse que eu havia ficado naquele estado só por
causa da multa que teria que aplicar por não termos passagens. Falei de
meus bilhetes e novamente todos deixaram de entender minhas palavras
estrangeiras!?! Então parti para artes cênicas. Resolvi ter um quiprocó
teatral e exigi cuidados médicos com urgência.
- Uma ambulância! Médicos!
Um deles falou baixinho pro ordinário que devolvesse nossos documentos,
pois aquela confusão acabaria dando uma grande merda para eles.
Tivemos nossos passaportes finalmente devolvidos com a condição deu parar
com o chilique, mas as passagens não quiseram devolver de forma alguma.
Para atender aos pedidos de meu Tuninho, sai da estação sem minha prova
real e tomamos um táxi de volta a Roma.
Escrevi hoje uma carta que vou enviar ao consulado brasileiro no Vaticano
narrando esse fato. Se der em pizza, quero napolitana cortada à francesa.
Tenho lido tanto sobre turistas que sofrem o golpe do Vigário em terras
brasileiras.
Ninguém jamais fala daqueles que sofremos fora dela. O meu golpe foi
promovido para golpe do Cardeal, mais ainda, papal!
E tem gente que ainda chama nossa pátria de nanica, quando nem ainda
acabamos de crescer direito. Somos adolescentes inseguros diante da
terceira idade do planeta.
Sinto-me agora bem à vontade para chamar certas terras de gigantes que
encolheram na pretensão de ensinar o que desaprenderam. Ética, moral e etc
e tal. Um fato isolado? Alguns podem dizer e eu vou até concordar, mas
quando é aqui, basta uma andorinha safada pra manchar todo o nosso verão e
o turismo ficar com as calças na mão.
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá!A pizza que dá aqui é bem
menor que a de lá!
(26 de maio/2007)
CooJornal no 530
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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