
09/06/2007
Ano 11 - Número 532
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Momento
Mágico
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Entraram todos no mesmo
barco. Turistas, mergulhadores profissionais, pesquisadores do meio
ambiente. Grupos distintos, cada qual em um canto. Todos olhavam o mar e a
paisagem em geral com extrema admiração.
De repente, ela sentiu um olhar direcionado a ela. Retribuiu. Ambos se
olhavam fixo através dos óculos escuros. Tinham aquela certeza de olhos
nos olhos, por trás das lentes.
Buscavam as reações nos traços dos rostos, frente aquele espetáculo da
natureza.
A embarcação parou, chegara o momento do mergulho. Óculos foram
substituídos por máscaras, e por frações de segundo houve uma troca direta
de olhares.
Dispersaram-se no meio de seus grupos.
Ela mergulhou e encantou-se com a cor da água, a variedade de peixinhos
coloridos e espantou-se com cardumes de peixes grandes, chegando a sentir
até um pouco de receio.
Ao longe, viu-o tomando a temperatura da água, discutindo as espécies e o
habitat marinho. Algumas horas de real encontro do ser humano com a
natureza.
A maré enchia, hora de retornar ao barco.
Estava escurecendo e não existiam mais motivos para os óculos escuros. A
lua começou a aparecer; o céu, a ficar pontilhado de estrelas. Passaram,
então, a olhar para o céu e apenas algumas trocas de olhares furtivos. Ele
fotografava os fenômenos da maré, a posição e fase da lua.
De longe, ela percebeu que ele fazia anotações em uma folha de papel. Ela
tentava guardar na memória os versos que lhe vinham à cabeça.
Ele parecia o tempo todo lúcido e racional. Um cientista. Enquanto ela
transbordava o tempo todo em emoção. Uma poeta. Opostos que se
encontraram, vivendo juntos aquele momento mágico, com visões tão
diferentes.
Àquela altura, ela já havia incorporado nele o Richard Gere, olhando-a
fixamente e imaginando beijá-la. Sua mente, extremamente produtiva, a
avisava no entanto que ele provavelmente preferiria que ela fosse uma
luneta a ser uma Júlia Roberts, babando por ele.
"Droga!", pensa ela. "Ele deve estar preocupado em identificar a Ursa
Maior ou Menor no meio daquele montão de estrelas. Provavelmente a
ligeireza em suas anotações é para não se esquecer de cadastrar alguma
espécie extinta do mundo aquático."
Sente-se ridícula por querer saber a cor definida dos olhos dele.
Definitivamente, xingava-se pela certeza antecipada do esquecimento dos
versos que sopravam em sua cabeça, produto do mar, do céu e dele. A
presença do pesquisador Gere a transtornava.
Quase chegando em terra, bateu um vento forte. Ela não havia levado
agasalho. Sempre fora poeticamente correta. Ele abriu uma mochila e
apanhou uma capa. Sempre fora politicamente correto.
O barco atracou, o vento aumentou. Ela se sentia desamparada e
despreparada para a longa caminhada pela areia até o estacionamento dos
carros. Não olhou mais para nada, andou apenas ligeiro. Sentiu um certo
alívio por perceber que o vento havia diminuído. Não viu que ele abrira a
capa atrás dela, fazendo uma marquise para protegê-la do frio.
Ao chegar ao estacionamento, correu para o seu carro. Abriu a porta e
abaixou-se para limpar os pés. Levou um susto ao ver cair uma folha de
papel no banco traseiro. Apanhou rápido e viu o esboço de seu rosto, ali,
desenhado.
Virou-se correndo e distinguiu ao longe o vulto de seu Richard Gere,
confundindo-se com as estrelas, acenando um adeus de costas.
O universo é enorme. O amor é infinito. Ambos, um enigma.
(09 de junho/2007)
CooJornal no 532
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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