
28/07/2007
Ano 11 - Número 539
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Fascínio e tédio
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“Os seres humanos sempre necessitaram de uma saída da
realidade, onde seus desejos se realizem e se dê vazão a todos os
acontecimentos por nós tão ansiados e produzidos”.
Foi na TV Tupi, primeira televisão da América Latina, que as novelas
ganharam cara e corpo. A primeira foi ao ar em 1951, exibida apenas duas
vezes por semana. "Sua Vida Me Pertence" interpretada e dirigida por
Walter Forster!
Teatro em casa para mais alguns, pois naquela época ter TV era tão luxuoso
quanto ir ao teatro. Em 1963 estreou na TV Excelsior “Ocupado” com
Tarcísio Meira e Glória Menezes, a primeira novela diária. Ela atingiu um
público maior, pois a aquisição do aparelho começou a ficar mais acessível
à classe média e junto veio o hábito da TV vizinha, TV compartilhada. No
final dos anos sessenta (no Brasil) a TV virou imprescindível na vida de
todos e passou a ser o item mais requisitado pela população. Ter ou não TV
era um diferencial.
Os intelectuais blasfemaram contra o aparelho, especialmente em relação às
novelas!
"Beto Rockfeller” escrita por Bráulio Pedroso, que ganhou o Prêmio Molière
por sua peça teatral O Fardão levou a uma certa mudança de conceito sobre
as telenovelas. Em "Beto” Braúlio trabalhou a imagem do ardiloso
e explorou o malandro brasileiro.
A partir desse novo olhar a elite cultural foi mais benevolente, apesar
das eternas restrições, que até eu que não sou elite faço. Vejo novelas,
assisto TV, mas sempre dou uma peneirada.
Nos anos setenta a telenovela virou mania nacional. Vista diariamente e
várias ao mesmo tempo em diversos canais. Discutida, curtida e logo
esquecida, assim que outra começasse. Com livro é assim?
Penso na Net que seguiu os passos do folhetim da TV. Uma revolução das
comunicações que moldou uma nova geração e modificou os hábitos
anteriores. Na Internet não só se assiste, cria-se, participa-se,
interage-se. Um fenômeno onde também a intelectualidade demorou a
reconhecer, porém acabou subjugada.
Chat, Grupos virtuais e escritores proliferam!
Em 2006 a Internet já estava com mais de 20 mil newsgroups! Mas onde
quero chegar?
Ao limite entre o fascínio e tédio.
Hoje muitos vêem novelas neste limite, porém não abrem mão de ver. Puro
vício de ligar a TV.
Será que aqui não estamos no mesmo limite? Não seria esta série de
buchichos no virtualismo a fagulha da saturação? Eu não te leio porque tu
não me lês, então não nos lemos. Amém!
Não me eximo de culpa, pelo contrário, assumo. Na tentativa de inovação
acabamos por pecar nos excessos. Vale tentar a redenção ou vem algo novo
por aí?
Quem sabe a qualquer hora dessas não entramos de vez um na casa do outro
através de um botão?
Não sei o quanto eu aborreço vocês, acredito que muito, pois tiro por mim
que eu ando bastante entediada com a invasão de meu correio, de minha
privacidade, das repetições, das novelinhas sem as mãos de Bráulios
Pedrosos.
É um momento, talvez apenas meu, em que percebo minha saturação pelo
virtual e junto com ela o espanto ou spam, pois eu adorava a Net. Acho
que peguei um vírus de excesso de comunicação. Tenho receio de acordar com
um e-mail ao meu lado. E você? Na dúvida me delete antes que
seja tarde demais e eu me instale de vez no melhor lugar de seu sofá.
(28 de julho/2007)
CooJornal no 539
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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