25/08/2007
Ano 11 - Número 543


 

ARQUIVO
ROSA PENA


 

Rosa Pena

 

Comportamento geral
 

 

Gilda trabalhou muitos anos na casa de meus tios, hoje é uma amiga da família e às vezes resolve dar uma mãozinha em dia de festas. No aniversário de oitenta anos de titio, lá foi ela para ajudar e prestigiar, só que dessa vez trouxe os netos, seus orgulhos. Duas crianças encantadoras, uma menina de seis, e um garotinho de cinco anos. Diferente dos tempos antigos onde as crianças, filhos de empregados, só ficavam na parte de serviço, (tempos passados!?). Elas correram livremente pela sala e sentaram no sofá junto ao meu primo que lá estava com uma amiga que havia chegado de Londres há pouco tempo.
Jorge com seu jeito alegre e solto de sessenta anos bem resolvidos começou a brincar com as crianças e logo tinha uma criança sentada em cada perna.

— Na Inglaterra você não poderia ter este comportamento com crianças que não são seus filhos. Sentadas no seu colo é assédio, sentenciou Ana, brasileira que morou dez anos fora daqui, fazendo mestrado em tudo de tudo. Ela é uma intelectual. Culta, séria, erudita, vegetariana, magra que nem uma vara, branca transparente, caga-regra de condutas, daquelas que saem com um livro pendurado e não a bolsa cheia de inutilidades (mulheres adoram carregar o supérfluo da vida na bolsa). Extremamente autoritária e obviamente solitária. Vive na fossa, faz terapia desde que nasceu ou nasceu no meio de uma.
Jorge é economista, estudou muito, carrega uma bagagem cultural imensa, mas não perdeu o gosto por um churrasco, adora uma cerva, um rock arrebentando os limites permitidos a saúde, diz bom dia, boa tarde, responde aos e-mails que lhe são enviados, adora sorrir, perdoa a falta da vírgula ou o excesso dela nas orações, um pacífico que subitamente estressou.
— Se trato bem uma pessoa é por interesse, se for uma mulher já estou com desejos sexuais por ela, se pergunto se está tudo bem, já estou me intrometendo na vida particular desse alguém. Falar direito com nosso semelhante é coisa de gentinha, não combina com erudição. Os grandes pensadores vivem a pensar, ora bolas e não a agir pela PAZ!
Afinal que tipo de auxílio social à educação, esses expoentes culturais têm prestado?

Em uma loja o vendedor sorri e faz elogios por obrigação, mas isso é a profissão, treinamento, não pega mal. Quando temos problemas contamos ao médico, ao advogado, ao psicólogo, confiamos tudo a um estranho, mas isso também é profissional. Então não é intromissão. Ser um amigo não é ser natural, cordial, um cidadão de boa educação? Mais ainda, o que é gentileza? Não existe uma escola que forme amigos e nesse atual presente o homem afetuoso é visto como inculto, a gentileza está em extinção. Ela está bem longe de ser um item obrigatório na atualidade. Virou opção de desocupados mentalmente, de leigos, de alienados. Nada disso é construído através de lições de educação e ética daqueles que se dizem tão cultos e têm tanto a ensinar, pelo contrário, pois estes estão tão envolvidos em usar sua sabedoria para consertar o mundo, que não possuem tempo para dizer obrigado, por favor, um alô para um conhecido. Sobra-lhes, porém, tempo para diagnosticar os males da sociedade. Guerra, fome, violência, e a maior de todas, solidão. A solidão foi arquitetada pela elite que considera que “pega mal” dizer o quanto se gosta do amigo, o quanto é ridículo sorrir do nada, um absurdo gritar um alô, vexame elogiar alguém, maldade num abraço paternal. Cultura é criticar! Talvez a simplicidade seja muitas vezes confundida com assédio pelos intelectuais, visto que para se ser uma pessoa cerebral, tem que se bloquear emoções. São os pensadores de merda que estão fomentando a terceira guerra.

Crianças podem brincar à vontade enquanto não chegam os mísseis. Meu colo é “incultamente” normal.



(
25 de agosto/2007)
CooJornal no 543


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net