
29/09/2007
Ano 11 - Número 548 
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Amarelaram os verdejantes tempos!
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Em 1990 a convite da diretora do Distrito Educacional da Tijuca fui tentar
implantar Multimeios na educação em uma escola no morro do Borel. Para
quem desconhece Multimeios: É o uso de tecnologias de informação e
comunicação que contribuem no processo ensino-aprendizagem. É levar
cinema, teatro, música, literatura entre outros, para dentro da sala de
aula.
A escola
era no centro da favela e já existia narcotráfico, violência, menos
que hoje, mas existia e muito.
Eu adoro
desafios e aceitei. Resolvi fazer um grupo de teatro com crianças na faixa
de dez anos, muitos já aliciados pelos donos do pedaço. Idealizei
alfabetizar através de artes cênicas. Um coral com os gritos das vogais e
o corpo expressando o que a boca dizia. AI! OI! UI! Uma aula bem
colorida.
Eu adoro
verde, amarelo, azul e branco.
Inicialmente os alunos não levaram muito a sério e acharam que eu só
brincava com eles, o que era ótimo, pois os atraia para o meu intento. Com
o tempo quase todos começaram a aprender a passar as emoções para o papel
e também tentar ler o que eu escrevia neles para poderem representar.
PI-PA. Mímica de uma pipa: Vamos voar com ela! Nosso céu é tão azul!
Tinha um
senão. Alguns alunos dessa sala, chefiados por um menino de nome Umberto,
faziam de tudo para dispersar os demais e colocar a perder tudo que eu
estava prestes a realizar.
Resolvi
investir no Umberto, fazê-lo cenógrafo, dar-lhe a chance de aparecer
produtivamente.
Ele ainda
tentou permanecer oposição, mas o meu carinho era tão grande que aos
pouquinhos ele foi virando parte integrante e principal dessas
aulas. Parecia feliz da vida e retribuía meu afeto até com flores. Eu
acreditava nele, eu delegava e declarava ao menino que tinha esperança em
vê-los todos alfabetizados, futuramente empregados, longe do crime e com
perspectivas de vida longa, pois no esquema pivete viciado a vida é curta
e o prazer fictício.
No final
de 1990, grande parte da turma já sabia ler o básico e estavam prontos
para entrarem para uma turma regular de segunda-série e concluírem a
alfabetização. Reinava a branca paz, aquela que pinta entre os iguais.
Meu
coração batia alegre, pois havia conquistado a amizade e o respeito da
comunidade, especialmente dos rebeldes
Umbertos.
Tinha muita fé, a quase certeza que havia conseguido vencer uma pequena
batalha nessa luta tão antiga. Isso me levava a rabiscar de muito verde o
amanhã.
Eu sempre
adorei verde, amarelo, azul e branco.
Nas férias
seguintes, janeiro de 1991, subia eu de carro pelo Alto da Boa Vista
quando três garotos encapuzados pararam meu carro para me assaltar. Saltei
rendida e entreguei tudo que tinha exceto um anel de pouco valor material,
mas que foi de minha avó. Um mandou que eu o tirasse, mas outro disse que
deixasse, pois de nada valia. Reconheci aquela voz baixa. Era do Umberto.
Tentei olhar em seus olhos, mas um grito de ordem me fez desistir. Ele
sabia que eu o havia reconhecido. Obedeci ao comando dos três canivetes,
entrei no carro e parti com o coração partido.
Naquele
dia roubaram mais que o meu pouco dinheiro.
Levaram
muito da minha crença, de que se cada um fizer a sua parte a gente
consegue mudar o sistema.
Por
ocasião da eleição de Luiz Inácio da Silva, muitos de nós viramos aquela
professora de Multimeios que foi dar aula na favela. Acreditamos! Mas qual
o quê! Levaram até os nossos anéis, feitos apenas da expectativa que
Umbertos
viessem a gostar de verde, amarelo, azul e branco.
O PT está
mostrando que os meninos serão bem menos. Quem sabe cheguem ao
status
do Beira-mar ou de um senador da república?
Não tenho
mais vontade de votar.Todos que chegam ao poder só gostam de amarelo.
Não me
chamem de omissa por não querer mais exercer minha cidadania, pois quem
lavou as mãos foi o Pôncio Pilatos da Silva, enquanto nós brasileiros
fomos para a cruz. Ah! Antes que me digam que o Pôncio romano não agiu
sozinho, foi pau mandado, fez conchavos (disso eu sei), afirmo que o
Pilatos Tupiniquim idem e que ficará registrado na história como assassino
da fé dos brasileiros! Quantos
Umbertos
ainda virão antes da salvação?
Procura-se quem goste também de verde, azul e branco.
(29 de setembro/2007)
CooJornal no 548
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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