Carlinha vem passar o
fim de semana comigo.
É seu aniversário. Estou feliz de ver minha neta ao vivo pela primeira
vez. Puxa! Vou tocá-la, cheirá-la.
É óbvio que assisti ao nascimento dela e ouvi seu choro em tela grande e
não travou nada.
Também dei sorte no batizado. A conexão estava excelente. Participei feliz
do evento, com efeito sonoro e a imagem 3D. Meu Velox funcionou bem
demais.
Mas o cheiro eu nunca
senti. O Bill Gates ainda não fez versão Windows Natura ou Windows
Boticário.
Estarei lúcida na versão cheiro? E serão estes os cheiros?
No mais, tenho acompanhado tudo da vida e do mundo. As imagens são
lindíssimas, o som um verdadeiro show.
Será que ainda se
mergulha no mar? Que ainda se namora em cinema? Provavelmente sim, em
aldeias distantes, onde a versão é 98 ou XP. Gostaria de um dia retornar a
navegar nesse braço-de-mar antigo, mas não sei se volto a me adaptar com
travamento do PC ou pior ainda, com a sensação dos pés descalços na areia.
Então, porque
estranhamente tenho sentido tanta falta do papel, do lápis e da borracha?
De tocar em rostos, de sentir o gosto! Da prática de todos os meus
sentidos. A visão e audição estão bem supridas, mas olfato, tato e paladar
ficaram fora de uso. Gostava muito deles.
Carlinha não vai
conhecer isto. Aliás, ando com saudades de tudo. Maldita memória a minha.
Muitas megas de vida. Ela é de 49000000, guarda tudo. Ando lembrando muito
dos meus amores anteriores ao Gates.
Eu beijava no portão, chorava a traição e não tinha o Norton para excluir
a relação quando bichasse.
Existia feijoada com caipiríssima. Eu olhava a lua, eu cheirava as flores,
mastigava maçã, dançava coladinho, beijava na boca. Eu fiz isto sim meu
amigo @.
Envelheci. Meu disco
rígido está cansado. Preciso fazer um transplante de HD. Vai que tenho um
erro fatal enquanto estou dormindo. Congelo e ninguém vai saber. Morro ou
não?
Não morro definitivamente, pois minha vida está quase toda salva em CD, em
DVD.
Definitivamente não expiro subitamente, a tecnologia não mais nos permite
este luxo.
Virarei apenas um arquivo morto enterrado num tempo, com possibilidades de
purgar na lixeira, até que se delete este enlouquecido período da
história, onde quem reina é o vírus da solidão.
(06 de outubro/2007)
CooJornal no 549