Não
sei precisar o dia em que tudo começou a parecer
déjà vu, mas sem as cores vivas da aquarela de Mirò. Passei
a ver meio desbotado. Maria Rita eu já vi, é quase a Elis, mas sem o
vermelho da paixão. Não é pimenta original, apenas genérica.
A estrela Dalva não mais brilhou no céu, nem a pioneira, nem a Oliveira. O
Golden Room do
Copacabana Palace ficou chapeado e quebra os critérios com alguma Tati ou
quem estiver no hit-parade,
um alguém tão parecido com outro, que eu juro que já vi.
A Plataforma
apresenta as brancas de algum Sargentelli não aprovado pelo Inmetro e
tenho certeza que o Di Cavalcanti ficaria possesso. Algumas gostosas
pretendentes ao BBB, que eu juro que já vi dentro e fora da TV.
Onde será que a morena d' angola e a Severina
chique-chique de agora
fazem escovas progressivas?
Saudades da nega do cabelo duro, essa eu nunca mais vi.
A feira de São Cristóvão passou a tocar funk feito por um alemão que não
ganhava um puto de um euro, agora ganha espaço até no Jô Soares e os
pagodeiros, cujos pagodes inéditos eu já ouvi em algum lugar no passado e
ouvirei muitas vezes no futuro, que usam e abusam da água oxigenada,
feita pro leite, nos cabelos. Qualquer hora a Loreal vai comprar a
Parmalat. Nata com blondor eu nunca vi, mas a punição em formato redondo e
em forno a lenha, eu já vi sim e muitas vezes.
Não sei precisar a
hora em que meu sofá tão bonito ficou com o jeito de vencido, tanto quanto
eu, que a cortina do meu quarto assumiu o perfil da velha casa de meus
pais na data em que foi vendida, cheirando a mofo e carcomida. Também quem
me mandou não comprar as persianas
luxaflex aquela que impede ácaros, meus pais dormiram com
aracnídeos, mas sem dalmadorm; que os sapatos do
Mr Cat ficaram com a cara
de Di Santinni que tem
a cara de qualquer pisante que já vi, eu adoro sapatos masculinos -Que
pena!- que o coco não se abre mais com facão-quanta carrocinha de Fast
coco-bem higiênicas e a água com gosto de soro; que o ponto de táxi não é
mais parágrafo, pois o espaço é da Van: dois pontos a cada cem metros; que
a nossa fome passou a ser medida a quilo. Estou com uma fome de 400
gramas! Mas pão a metro eu já vi e vejo há um tempão. É moda. Por que não
criam bom senso em litro?
Não sei precisar o minuto em que meu grito de paz foi substituído pela
vontade que o filme Tropa de Elite ganhasse o Oscar e que não mais chorei
por passarinhos presos em gaiolas. Será que agora cavalo-marinho já nasce
no Jockey Club?
Mas eu queria realmente descobrir o exato segundo em que perdi o
encantamento do meu olhar.
Acho que foi no dia
em que não votei pro Cristo Redentor ser uma das sete novas maravilhas do
mundo. Nunca consegui achar ele lindo e não gosto de concurso ou eleição.
Tem jeito de roubalheira. Quantas eu já não vi!? E afinal, a verdadeira
maravilha do mundo não deveria ser o sol nosso de cada dia sem envelhecer?
Danado esse meu
calcanhar que teima em girar pro passado para que eu reveja em tecnicolor
minha esperança verde rugido.
Onde anda o meu sorriso? Juro que
déjà vu.
(10 de novembro/2007)
CooJornal no 555