Elas viviam em constantes discussões depois que o pai se mandou. Marília
pediu-me que conversasse com sua filha Dani, na tentativa de convencê-la a
fazer terapia comportamental para suportar melhor a separação do casal.
— Não sou eu quem está precisando de análise, pois quem vive com cara de
pão dormido desde que papai se foi, é mamãe.
— Acontece que todos nós sempre temos uma porta entreaberta, um episódio
com um final antecipado, um dito que não foi dito, uma mão apoquentada que
não nos deixa fechar a janela do ontem, uma sombra serena que já nos fez
tão bem e virou assombração, um duende safado que não cobrava pedágio pelo
nosso sorriso, um eco do grito maldito que perfurou o tímpano do amor
fervoroso e ele virou um surdo teimoso, uma pedra maior que a da Gávea,
num dos sapatos, mas pra soar mais bonito o nosso discurso amargurado,
chamamos de reminiscências.
Tem mais. E quando a pedra é de vidro vagabundo e a gente insiste em
continuar pensando nela como um diamante? O que não foi "para sempre"
brilha, pois não teve tempo de escurecer. Como sobreviver sem cara de
rabanada com essa pedra danada cutucando o calcanhar que virou de Aquiles?
— Usando sandálias havaianas ou cortando essa perna do passado, respondeu
de forma displicente aquela menina de dezoito anos e ainda deu uma
sacaneada nos valores
seculares estabelecidos.
A Vênus de Millus sempre foi perfeita sem braços!
Dei uma gargalhada e gritei:
— Viva o Saci-pererê!
Marília começou a fazer análise ontem e eu comprei havaianas Ipanema
Gisele Bündchen que não
prendem pedrinhas de nostalgia e nem deixam o chulé do já era.
(17 de novembro/2007)
CooJornal no 555