17/11/2007
Ano 11 - Número 555


 

ARQUIVO
ROSA PENA


 

Rosa Pena



Calcanhar da Bündchen!

 

 

Elas viviam em constantes discussões depois que o pai se mandou. Marília pediu-me que conversasse com sua filha Dani, na tentativa de convencê-la a fazer terapia comportamental para suportar melhor a separação do casal.

— Não sou eu quem está precisando de análise, pois quem vive com cara de pão dormido desde que papai se foi, é mamãe.

— Acontece que todos nós sempre temos uma porta entreaberta, um episódio com um final antecipado, um dito que não foi dito, uma mão apoquentada que não nos deixa fechar a janela do ontem, uma sombra serena que já nos fez tão bem e virou assombração, um duende safado que não cobrava pedágio pelo nosso sorriso, um eco do grito maldito que perfurou o tímpano do amor fervoroso e ele virou um surdo teimoso, uma pedra maior que a da Gávea, num dos sapatos, mas pra soar mais bonito o nosso discurso amargurado, chamamos de reminiscências.
Tem mais. E quando a pedra é de vidro vagabundo e a gente insiste em continuar pensando nela como um diamante? O que não foi "para sempre" brilha, pois não teve tempo de escurecer. Como sobreviver sem cara de rabanada com essa pedra danada cutucando o calcanhar que virou de Aquiles?

— Usando sandálias havaianas ou cortando essa perna do passado, respondeu de forma displicente aquela menina de dezoito anos e ainda deu uma sacaneada nos valores seculares estabelecidos.
A Vênus de Millus sempre foi perfeita sem braços!

Dei uma gargalhada e gritei:
— Viva o Saci-pererê!

Marília começou a fazer análise ontem e eu comprei havaianas Ipanema Gisele Bündchen que não prendem pedrinhas de nostalgia e nem deixam o chulé do já era.



(
17 de novembro/2007)
CooJornal no 555


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net