Acordei domingo passado
me sentindo não apenas viva, mas totalmente linda. Não tinha tomado nenhum
barbitúrico, não
havia acertado na loteria. A manhã nasceu com uma brisa fresca, antes do
sol inundar meu quarto. Liguei o som para ouvir o Zeca Baleiro: "Hoje eu
acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na
porta do vizinho e desejar bom dia".
É uma delícia se sentir bonita, um tantinho
Marilyn
Monroe,
coisa difícil depois dos cinqüenta e para piorar, na hora em que se acorda
de cara inchada e cabelos à dona Maria louca. Melhor ainda que beleza é se
sentir feliz por morar na cidade maravilhosa, ainda que morram os peixes
da Lagoa, que tenham assaltos em cada esquina, seqüestros relâmpagos, e,
e, e, e...! O milagre da multiplicação do bom humor foi graças à noite
anterior em que saímos eu e meu marido com nosso querido amigo Barone e
sua adorável namorada Cris. Certas pessoas possuem o dom do alto astral,
que nos permitem usufruir uma terça-feira gorda de alegrias em qualquer
dia.
Fomos apanhá-los num
hotel em Copacabana para irmos tomar um chope no Bracarense no Leblon. O
Barone, já conhecíamos, tem um charme encantador. Ele possui no olhar a
doçura do Nat King Cole
cantando. A Cris nós conhecemos nessa noite e não falamos:
— Muito prazer
— sentimos prazer
no primeiro abraço.
Fomos margeando o mar
sem pressa, usufruindo o deleite dessas horas desocupadas, apenas com
gosto de descobrir coisas novas, exercer a liberdade de ir e vir, de estar
aqui hoje e de fazê-lo como e quando se desejar, conhecer pessoas diversas
em cada viagem, em cada bar, em cada e-mail. Ah!Cris assim que me viu
afirmou que minhas fotos na Net
não faziam jus ao meu charme. Ai, ai! Veio daí minha síndrome
de
Marilyn.
Sentamos no Bracarense e
para quem não conhece o local vai uma pequena descrição.
É um bar pé sujo limpo, boteco com cadeiras na calçada, gritaria, risada,
um sanduíche de lombinho generoso, muito chope gelado e que reúne numa
mesa um Chico Buarque vibrando com algum Raimundo vira mundo, noutra o
Pedro pedreiro papeando com Cacá Diegues. Arrogantes nunca encontram
lugar, pois a simplicidade lota.
Certa feita João Cabral
disse que a verdadeira cadeira da academia da vida era a do Braca.
Estávamos sentados lá, já com chopes,
sandubas e bolinhos de
bacalhau, quando uma caminhonete Toyota enormeeeeeeeeee, resolveu estacionar numa vaga bem
na porta, onde caberia no máximo um Corsa. A rua José Linhares é
movimentadíssima e passa ônibus!
O guardador resolveu ajudar, mas só ele foi inútil, então os garçons
partiram em auxílio com vassouras e panos de pratos nas mãos, porém as
buzinas ensurdecedoras fizeram o bar inteiro parar. Todos nós viramos
guardadores. Mais de sessenta flanelinhas!
—
Pra direta, pra frente,
viraaaaaaaaaa o jogo todo, desviraaaaa, olha o pino. Cada vez que o carro
entrava um pouco, uma salva de palmas da galera. Depois de quase meia hora
o carro entrou e então vieram os aplausos de pé, pedidos de bis, assobios
e a cantoria:
—Por que parou? Parou por quê?
A motorista, uma mulher muito simpática, desceu do carro as gargalhadas!
Todos levantaram os copos num brinde ao sucesso da façanha. Um rapaz
dirigiu-se a ela agradecendo a canja do show! – Valeu gente boa!
Barone riu muito e Cris definiu com precisão o momento:
—
Adorável essa
descontração carioca.
Nossa noite rendeu a bendita felicidade feita de ocasiões especiais, onde
não existe preocupação em ser o ator principal no filme existência. Apenas
coadjuvantes do deixa a vida me
levar, vida leva eu. Esse momento será revisitado muitas vezes
pela minha memória. É daqueles que a gente tem vontade de dar replay,
replay, replay...
Viva minha cidade que aniversariou dia primeiro de março. Será que agora
chegou à maioridade ou será eternamente uma adolescente que ora tem mil
problemas, ora sorri contente apenas com um mergulho no mar?
Sempre encherei a boca para dizer:
— Eu sou carioca!
Dá
uma olhada no meu jeitinho de andar.
(22 de março/2008)
CooJornal no 573