22/03/2008
Ano 11 - Número 573

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 

Rosa Pena



Por que parou? Parou por quê?

 

 

Acordei domingo passado me sentindo não apenas viva, mas totalmente linda. Não tinha tomado nenhum barbitúrico, não havia acertado na loteria. A manhã nasceu com uma brisa fresca, antes do sol inundar meu quarto. Liguei o som para ouvir o Zeca Baleiro: "Hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia".

É uma delícia se sentir bonita, um tantinho
Marilyn Monroe, coisa difícil depois dos cinqüenta e para piorar, na hora em que se acorda de cara inchada e cabelos à dona Maria louca. Melhor ainda que beleza é se sentir feliz por morar na cidade maravilhosa, ainda que morram os peixes da Lagoa, que tenham assaltos em cada esquina, seqüestros relâmpagos, e, e, e, e...! O milagre da multiplicação do bom humor foi graças à noite anterior em que saímos eu e meu marido com nosso querido amigo Barone e sua adorável namorada Cris. Certas pessoas possuem o dom do alto astral, que nos permitem usufruir uma terça-feira gorda de alegrias em qualquer dia.

Fomos apanhá-los num hotel em Copacabana para irmos tomar um chope no Bracarense no Leblon. O Barone, já conhecíamos, tem um charme encantador. Ele possui no olhar a doçura do Nat King Cole cantando. A Cris nós conhecemos nessa noite e não falamos:Muito prazersentimos prazer no primeiro abraço.

Fomos margeando o mar sem pressa, usufruindo o deleite dessas horas desocupadas, apenas com gosto de descobrir coisas novas, exercer a liberdade de ir e vir, de estar aqui hoje e de fazê-lo como e quando se desejar, conhecer pessoas diversas em cada viagem, em cada bar, em cada e-mail. Ah!Cris assim que me viu afirmou que minhas fotos na Net não faziam jus ao meu charme. Ai, ai! Veio daí minha síndrome de Marilyn.

Sentamos no Bracarense e para quem não conhece o local vai uma pequena descrição.
É um bar pé sujo limpo, boteco com cadeiras na calçada, gritaria, risada, um sanduíche de lombinho generoso, muito chope gelado e que reúne numa mesa um Chico Buarque vibrando com algum Raimundo vira mundo, noutra o Pedro pedreiro papeando com Cacá Diegues. Arrogantes nunca encontram lugar, pois a simplicidade lota.

Certa feita João Cabral disse que a verdadeira cadeira da academia da vida era a do Braca.

Estávamos sentados lá, já com chopes, sandubas e bolinhos de bacalhau, quando uma caminhonete Toyota enormeeeeeeeeee, resolveu estacionar numa vaga bem na porta, onde caberia no máximo um Corsa. A rua José Linhares é movimentadíssima e passa ônibus!
O guardador resolveu ajudar, mas só ele foi inútil, então os garçons partiram em auxílio com vassouras e panos de pratos nas mãos, porém as buzinas ensurdecedoras fizeram o bar inteiro parar. Todos nós viramos guardadores. Mais de sessenta flanelinhas!

Pra direta, pra frente, viraaaaaaaaaa o jogo todo, desviraaaaa, olha o pino. Cada vez que o carro entrava um pouco, uma salva de palmas da galera. Depois de quase meia hora o carro entrou e então vieram os aplausos de pé, pedidos de bis, assobios e a cantoria:

 Por que parou? Parou por quê?
A motorista, uma mulher muito simpática, desceu do carro as gargalhadas!
Todos levantaram os copos num brinde ao sucesso da façanha. Um rapaz dirigiu-se a ela agradecendo a canja do show! – Valeu gente boa!
Barone riu muito e Cris definiu com precisão o momento:
Adorável essa descontração carioca.

 Nossa noite rendeu a bendita felicidade feita de ocasiões especiais, onde não existe preocupação em ser o ator principal no filme existência. Apenas coadjuvantes do deixa a vida me levar, vida leva eu. Esse momento será revisitado muitas vezes pela minha memória. É daqueles que a gente tem vontade de dar replay, replay, replay...

Viva minha cidade que aniversariou dia primeiro de março. Será que agora chegou à maioridade ou será eternamente uma adolescente que ora tem mil problemas, ora sorri contente apenas com um mergulho no mar?
Sempre encherei a boca para dizer:
Eu sou carioca!

Dá uma olhada no meu jeitinho de andar.



(
22 de março/2008)
CooJornal no 573


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net