05/04/2008
Ano 11 - Número 575

 

ARQUIVO
ROSA PENA


 

Rosa Pena



Prosa da aproximação
 

 

Soneto da Separação

Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


"De repente, não mais que de repente...” Percebemos o vazio de mandar um bom dia, crônicas, poemas, para tantos sites, grupos, pois de repente, não mais que de repente ficou claro que quase ninguém lê e lotamos as caixas do pessoal assim como achamos que eles lotam as nossas.

De repente, não mais que de repente...Caí nossa ficha que a Net está com uma superpopulação e teimosamente permanecemos no final dos anos 90 quando começamos a usá-la. Esquecemos que o tempo é muito mais veloz do que imaginávamos (eu era adolescente ainda ontem) e se o Cazuza já dizia que o tempo não para, no virtualismo ele voa e nem precisa de controlador ou precisa? Será que estamos em greve de amor?

De repente, não mais que de repente... Percebemos que virou pura obstinação tentar andar bem junto em qualquer multidão. Todo sistema tem sempre um rei e aqui temos tantos. Uol, Terra, Yahoo, Hotmail, Google... Súditos dessas majestades, pois somos cativos de afeto, entramos geral na deles e aos poucos vamos perdendo nossa identidade, viramos ID, perfil, poeta entre milhares de milhões.

De repente, não mais que de repente o riso fez-se megas, as bocas @, a poesia spam
E o e-mail ficou triste, a Net irritante.

De repente, não mais que de repente olha-se de frente o vizinho real e percebe-se que um condomínio é feito de gente e não uma comunidade do Orkut.

De repente, não mais que de repente redescobrimos que tudo na vida é novidade, passou e que virou apenas pirraça querer voltar ao tempo das surpresas. Babou!

Também de repente, não mais que de repente percebemos que não conseguimos fechar a porta para alguém que nunca vimos, mas que sabemos ser exatamente igual a nós e nos faz tanta falta, talvez mais que uma irmã de sangue que nunca se emocionou com Drummond.

E de repente, não mais que de repente nasce esse bom dia insistente, essa prosa incoerente que mente ao dizer que a Internet não me faz mais contente. Um bom download pra todos. Se pintar saudades Baixaki. 




(
05 de abril/2008)
CooJornal no 575


Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net