Para onde vão as
quimeras que nós profanamos? Sonhos não podem virar realidade. Devem ficar
em estado de eterna utopia. Será que vão morar junto com o anel que “tu me
deste era vidro e se quebrou”, o outro pé do brinco indiano, o batom
cereja que a mochila da Company
engoliu, o bilhete recebido com aquelas flores em algum dia
dos namorados, a velha e companheira
Lee comprada na nossa
estréia em Free Shop?
Há um esconderijo, um
pântano onde são tragados os sorrisos dos quinze anos, bolo vivo de
meninas ainda brotos de mulher, a paquera com o professor de história, o
cheiro de suor do bruto tesudo
que dirigia a lotação do Nelson, o gosto do vinho daquele
reveillon, quando a gente
ainda acreditava em ano novo vida nova, o beijo delicioso que não teve
replay (a língua ficou à míngua). “O amor que tu me tinhas era pouco e se
acabou”.
Ficam lá, numa esquina impenetrável, ao som de meia dúzia de frases
repetidas pelos deuses da nostalgia e a gente implora ao diabo
contemporâneo para esquecer. No dia em que percebemos que eles,
finalmente, compraram passagem pra desmemória... Ah! Escrevemos para
imortalizar.
É bizarro ver os
lábios trancados e as palavras voando soltas. Acho que ficamos com uma
puta vontade de “gritar” no aberto tudo que vivemos em
pvt.
Perai galera! Vivi sim!
Talvez mais... É uma vontade filha da mãe de falar para as mocinhas,
teimosas em nos ensinar como é a vida, que já tivemos brincos caducos,
bolsas de griffe,
aeroportos com suspiros de tesão, vinte e nove semanas de amores
proibidos, desejo súbito de ter geladeira amarela para homenagear o
submarino, AP cheirando a incenso
patchuli, corpo borrifado de
Chanel n°5, calcinhas da
Victoria's, cangas de
bali, barriga sarada, Red Bull
sem flacidez nas asas.
A gente não nasce
tias do Mauro Rasi. A vida é que nos veste delas.
(24 de maio/2008)
CooJornal no 582