A mama direita doía
muito. Passou novamente a mão nela e sentiu o nódulo quase saltando.
Vestiu o sutiã na tentativa de escondê-lo de si própria. A chuva caía
forte como se chorasse pelos bicos rosados que sempre passearam livres
pelo espelho.
Olhou o relógio e a rua. Um casal de namorados passeava sem medo algum de
pegar um resfriado. Que cantem felizes como o
Gene Kelly e a Jean Hagen;
pensou.
Os passarinhos apanhados de surpresa tentavam encontrar abrigo para
proteger suas asas. Que encontrem árvores frondosas; suspirou.
Começou a tentar orar alguma prece, mas sua mente resolveu não se lembrar
nem da Ave-maria. Quem mandou parar de ir à igreja? Quem mandou? Quem?
Rezar, sim rezar muito para escapar do desconsolo vazio que atravessa os
corpos em desarmonia. Ao longe avistou um cartaz com a propaganda do DVD "Down
to Earth".
Será que o céu realmente
pode esperar?
Abriu as janelas para ver melhor a chuva e o ar liberou o
cheiro de um café recém-coado em alguma casa com odor de família reunida.
Vestiu seu vestido mais sem graça, abriu a porta pensando no diagnóstico
que estava por vir, na sua total ignorância em preces. Beija-flores,
sabiás, escolhem o seu cantinho em busca de calor. Tomara que nenhum deles
caía em arapucas desumanas. Livres e cantando
Singin' in the Rain. O café
voltou para suas narinas e ela lembrou do bolo de laranja que sua mãe
fazia. Sempre foi seu abrigo, ainda mais hoje com esse frio carioca,
apesar dos teimosos termômetros marcarem 40 graus.
Atravessou a rua com tanta pressa que esbarrou de leve numa mulher
grávida. Pediu desculpas e desejou que nascesse uma linda criança. Entrou
no táxi com uma ansiedade impiedosa por não saber rezar. Olhou o taxista e
notou um ferimento ligeiro em seu rosto, provavelmente na pressa em se
barbear. Pegou seu pequeno lenço e ofereceu-lhe. Ele agradeceu com um
aceno feliz. Saltou na porta da clínica e viu uma criança amuada. Sorriu
para ela imitando seu bico. Balançou seu chaveiro com um ursinho
pendurado. A menininha agarrou satisfeita. Tirou as chaves e deixou-a
ficar com o encanto.
Foi para o elevador aflitíssima com a oração que não fez. A súplica
perdida na memória exatamente hoje, sim, logo hoje não lhe veio qualquer
palavra santa do dicionário, nenhuma chance de mostrar que seu coração não
é totalmente oco.
O ascensorista perguntou o andar.
—Vigésimo segundo.
—Vai para o céu!
—Não... Vou para inferno.
—Por que?
—Não sei mais rezar.
—Odeia seu próximo, humilha crianças, mata formigas, aprisiona colibris?
—Lógico que não! Que absurdo!
—Então...
Entrou na sala convicta que a cirurgia seria um sucesso. Acariciou seu
seio, fez as pazes com ele. O céu? Definitivamente terá que esperar, já a
chuva não. Cantar ao sol não tem lá muita graça. “Chove chuva, chove sem
parar, pois eu vou fazer uma prece... Pra Deus, Nosso Senhor”, pelos
beija-flores, pelas grávidas, pelos enamorados, pelos trabalhadores, pelas
crianças, pelo bolo nosso de cada dia. Salve mamãe. Salve Maria.
(21 de junho/2008)
CooJornal no 586