
08/08/2008
Ano 11 - Número 593
ARQUIVO
ROSA PENA
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Rosa Pena
Conceito & Preconceito
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Fé cega, Faca amolada.
(*Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
*Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer a luz de todo dia
Terça-feira
Um dia normal como outro qualquer, com todos os descasos que o mundo
evidencia. Na esquina aquele mesmo menino franzino, pernas bem fininhas,
camiseta rasgada, sentado na calçada com seu cão... Espiando o céu! Acabo
sempre olhando para o alto por causa dele. Não quero encará-lo. Eu sempre
apressada e medrosa, afinal estes meninos de rua são um perigo! Entro no
carro e ajeito meu banco. Dou outra olhada de esguelha e percebo que ele
fala sozinho ou será que conversa com o cachorro? Olha para mim, sorri e
acena. Dou um "tchauzinho" rápido apenas para disfarçar meu temor. Jogo a
primeira, acelero e fecho as janelas. Tenho muitíssima pressa.
Chego correndo ao trabalho. O ascensorista assobia e me dá bom dia. Fico à
espera dos outros passageiros, que saco, indócil para que ele suba logo.
Olho o relógio sem disfarçar minha intolerância. Chego na secretaria, pego
voando a chamada e corro para sala de aula. Reparo que ela está suja.
Pergunto para "alguém", porque não foi dada a faxina. Sou avisada que o
responsável adoeceu. Questiono-me internamente quem é o tal responsável
que nunca vi. Não é exatamente a pergunta que deveria fazer-me! Deveria
questionar-me sobre outras coisas. Dou uma aula padrão e tomo dois
comprimidos de Tilenol, essa puta dor de cabeça não para. Esgotamento
emocional adquirido e assumido. Será que ainda tenho receita para comprar
frontal?
Quarta-feira
Um dia normal quase como outro qualquer. O menininho está lá. Não me
contenho, apesar do imenso temor, e chego perto. Pergunto com quem ele
conversa tanto. Responde-me: — Com os bichinhos que estão no céu. Adoro o
elefante que está bem lá no alto. Lembro-me que já vi muitos carneirinhos
nas nuvens e também já levei altos papos com eles.
Entro no carro e não acelero tanto. Abro totalmente a janela. Entra um
vento delicioso. Chego na hora certa ao trabalho. Antecipo-me ao
cabineiro: — Bom Dia! Aguardo os outros passageiros e acabo até sabendo o
nome da mulher do ascensorista. Vou para a secretaria e antes de pegar o
fichário pergunto pelo faxineiro. Fico sabendo que ele melhorou e já
voltou a trabalhar. Chegando à sala de aula, percebo que ela está um
brinco. Porque nunca tinha reparado na limpeza?
Dou uma excelente aula. Estranho... Hoje não sinto dor de cabeça. Meu
frontal acabou desde ontem e eu não tenho receita. Dane-se, aprenderei a
viver sem ele. Volto para casa querendo ver o menininho. Aliás, volto
querendo ser ele. Fase boa esta, onde se criam conceitos. Fase má a que eu
andava. Criando preconceitos. O pior é que criei até comigo. Não posso ser
alegre e calma num mundo tão hostil. Pega mal! Parece piração. Cheirou o
quê?
Blindei! É tanta violência que só consigo ver o mau e o feio. O bom ficou
na tela daquele filme de um passado distante. Será que ainda dá tempo de
voltar atrás e não ter o stress obrigatório do mundo contemporâneo? Será
que vou conseguir olhar um relâmpago e pensar em chuva e não em seqüestro?
Amanhã cedinho vou tentar ver novamente carneirinhos nas nuvens. Afinal,
bem depois de Nero ter colocado fogo em Roma, de Hitler tentar dizimar a
raça humana, Vinicius e Tom continuaram a sonhar. Eles não eram pirados.
Eram poetas.
Fosse eu um cão! Sem medo algum dos sem nada.
Livro PreTextos: 2004
(08 de agosto/2008)
CooJornal no 593
Rosa Pena
professora e escritora
RJ
rosapenarj@br.inter.net
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