Querido filho Tavinho.
Hoje você completa trinta e um anos!
Ula lá!
Lembrei de uma música.”Não confie em ninguém com mais de trinta”. Será que
agora em nossa DR
(discussão de relação) também vai pairar desconfiança? Que santa Menopausa
não permita.
Deixei seus presentes e essa cartinha com todo o meu carinho.
Coloquei também algumas besteirinhas escondidas pelo seu quarto. Tente
achá-las como fazia com os ovinhos da páscoa. Ah! Quanto aos seus
presentes que estão no sofá, espero que goste deles, pois comprei da mesma
forma com que você comprou os meus no dia das mães. Com todo afeto e como
você bem disse:
— A gente tem que dar algo que realmente combine com quem vai receber.
Espero que faça uma boa leitura do livro “Adolescentes rebeldes”, assim
como estou fazendo do que ganhei de você: “Saúde na Terceira Idade".
Também tive o cuidado de comprar um pijama bem solto, para não apertar
seus documentos, você sempre teve horror de fraldas apertadas. Ah! A cinta
que me deu das lojas “Marisa”
ainda não usei, mas entendi a sua escolha recair no manequim 48. Mulheres
de mais de cinqüenta, ainda que magras, sempre serão obesas... Né? Estou
guardando para quando você for independente e quem sabe finalmente se
casar com a Marilú. Rogo ao bom Deus que se casado você não se separe e
volte para casa. Agora os casamentos não duram, pois todo mundo descobriu
que é só voltar pra casa da mãe, sendo ela ou não Joana. Torço para que
sua esposa sempre faça para você a sua vitamina de mamão, acerola,
laranja, kiwi, colocando apenas açúcar mascavo. Por sinal a dita está
pronta no liquidificador. Lembre-se, pelo menos uma vez na vida, de deixar
o copo com um pouquinho de água no fundo, senão depois para lavar é uma
merda.
Tive que sair para cortar os cabelos no salão Paraíso. Padeço lá na
espera, mas toda mãe que se preza sempre padeceu! Fiquei anos sem poder
freqüentar cabeleireiros para pagar uma psicóloga e criar você sem
traumas. Acho que você não tem praticamente nenhum, exceto o de ver TV
deitado no sofá da sala o dia todo. Será que sem querer passei pra você
algum transtorno de divã?
Às
vezes até me arrependo de não tê-lo colocado na escola de circo. Afinal
acrobacia com bolas no sinal é um trabalho! Mas fazer o quê? Agora Inês,
minha psicanalista, é morta e você formado em oceanografia pela
Universidade da Cidade Virtual. Pena que se formou só para continuar a
surfar. Nunca quis saber de peixes, exceto do Godofredo que vive no
aquário, aliás, eu já dei comida pra ele, senão o bichinho morre. Mães!
Mas as mães não devem interferir nas escolhas. Todo cuidado é pouco com o
emocional de um filho.
Despeço-me com assobios de
parabéns, parabéns, hoje é o seu dia, que dia mais feliz. É a
música da Xuxa. E dessa
“com quem será, com quem será, com quem será que o Tavinho vai casar”,
recorda?
Beijos da mamãe
Cacilda.
P.S. Seus cachorros já levei para passear, senão eles cagavam na sala.
Lembre-se de que hoje, quando for para a terapia, não deve e nem pode
colocar culpas de maneira alguma em mim, mas sim em outra ancestral (de
sua bisavó para trás), pois eu já culpei a minha mãe e ela a dela. Não sei
o nome de sua tataravó, mas acredito que seja ela a responsável por você
ser oceanógrafo desempregado, surfista aposentado e dependente de mim. Te
amo!
Obs: Os personagens são
imaginários
(05 de setembro/2008)
CooJornal no 597