
06/02/2010
Ano 13 - Número 670
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Rosely Boschini
A década do livro
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O ano de 2010, que inaugura a segunda década do Século XXI, mostra-se muito
promissor para o mercado editorial e ampliação do hábito de leitura em nosso
país. A começar pela estimativa de crescimento econômico de 5%, consolidando a
recuperação econômica do Brasil, a primeira nação a emergir da grave crise
mundial. Ademais, teremos a realização das eleições para a Presidência da
República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, que sempre
suscitam maior interesse em pesquisas e estudos sobre política e história.
Haverá, ainda, a Copa do Mundo, na África do Sul, evento tradicionalmente
estimulante para a indústria da cultura e do entretenimento como um todo.
Também será realizada a 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, de 12 e
22 de agosto, no Anhembi. O evento — o momento do livro no Brasil! — atrai
grande volume de público, constituindo-se, tradicionalmente, em elemento
formador de novos leitores. Trata-se de um verdadeiro convertedor de visitantes
de feiras em frequentadores de livrarias. Há que se considerar, ainda, o
crescimento anual dos programas governamentais de distribuição de livros às
escolas públicas, agora não mais restritos às obras didáticas.
Assim, há vários fatores que permitem vislumbrar com otimismo a performance do
mercado editorial. Não temos os números fechados de 2009, mas os dados e
estatísticas dos estudos mais recentes corroboram a percepção de que o livro e a
leitura encontram-se numa curva ascendente no País. No período de 2006 e 2008,
foram lançados aproximadamente 57 mil novos títulos e impressos mais de um
bilhão de exemplares, conforme se pode verificar na pesquisa “Produção e Vendas
do Mercado Editorial Brasileiro”, realizada pela Fipe/USP para a CBL (Câmara
Brasileira do Livro) e SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros). O
estudo também aponta significativa redução de preços. Se considerarmos os
valores reais, ou seja, já descontada a inflação de 2004 a 2008, a queda do
preço médio efetivo do período foi de 22,4% no segmento de obras gerais, por
exemplo.
Em 2008, o mercado editorial faturou R$ 3,3 bilhões. Foram publicados 51.129
títulos (mais 19,52% em relação a 2007) e produzidos 340.274.195 exemplares
(menos 3,17% na comparação com o ano anterior). Os números mostram maior
investimento em novos títulos. É uma estratégia inteligente do mercado,
estimulando o surgimento de autores e a produção intelectual. O maior número de
títulos permite gerenciamento estratégico das tiragens, que vão respondendo ao
comportamento da demanda. Outra importante pesquisa — Retratos da Leitura no
Brasil — também indica um cenário de crescimento para o consumo de livros. Em
sua última edição, identificou a existência de 95 milhões de leitores no País e
um índice de leitura de 4,7 títulos por habitante/ano.
Fica muito claro que a década terminada em 2009 apresentou um grande avanço do
livro no Brasil. Entretanto, ainda estamos num patamar aquém do compatível com a
realidade do país detentor da 10ª economia mundial, no qual se tem verificado um
dos índices mais acentuados de redução da miséria no Planeta e que se posiciona
como nação prestes a ingressar no rol das desenvolvidas. Assim, é preciso, no
novo ano, um imenso esforço para mitigar os obstáculos à expansão substantiva do
hábito de leitura.
Um dos passos importantes é suprir a falta de bibliotecas, inclusive na rede
pública de ensino. O Censo Escolar 2008 indica essa carência em 113 mil escolas,
ou 68,81% da rede pública! O problema não se limita à falta de livros. Em 2009,
o orçamento federal para o envio de obras gerais à rede pública foi de R$ 76,6
milhões. É um montante apreciável para as aquisições. Em 2008, as escolas
receberam, em média, 39,6 livros cada uma, média muito razoável. E isto não
inclui o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático). O que mais falta é
infraestrutura física, ou seja, espaços adequados à montagem das bibliotecas.
Somam-se a esse problema os grilhões do analfabetismo, triste realidade de um a
cada dez brasileiros. Em números absolutos, segundo estudo do Minist& eacute;rio
da Educação, cerca de 15 milhões de brasileiros maiores de 15 anos não sabem ler
e escrever. Mais grave ainda é que 21,6% dos habitantes com mais de 15 anos são
analfabetos funcionais.
São prioritários, ainda, programas capazes de facilitar o acesso ao livro pelas
crianças e jovens matriculados na rede pública de ensino. Nesse sentido, além da
ampliação das ações federais, como o PNLD e Programa Nacional Biblioteca da
Escola, são necessárias mais iniciativas conjuntas entre União, estados e
municípios e a iniciativa privada. Exemplo bem-sucedido da viabilidade desse
objetivo é o projeto Minha Biblioteca, realizado na cidade de São Paulo, com
forte apoio e participação da CBL. É essencial a mobilização do setor público e
da iniciativa privada, como vêm fazendo a s entidades do mercado editorial, para
que 2010 seja o primeiro ano de um década em que o livro esteja ao alcance de
todos os brasileiros e a leitura, conduzindo nossa população à sociedade do
conhecimento, referende nossa condição de país desenvolvido!
(06 de fevereiro/2010)
CooJornal no 670
Rosely Boschini é empresária do setor editorial
e presidente da Câmara
Brasileira do Livro (CBL).
camila@viveiros.com.br
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