07/06/2003
Número - 318

 
Rui Martins



O LEÃO, O LOBO E O CORDEIRO


 

Vocês devem conhecer aquela fábula de La Fontaine, sobre a justiça do leão. Ora, o coitado do cordeiro estava tomando água, quando o lobo decidiu processá-lo por estar sujando a água que bebia. Simples jogada, parecida com as mentiras do Bush e Blair sobre as armas de destruição maciça do Iraque. Chamaram o leão para julgar o litígio. O leão que vinha com fome, viu que o cordeiro era um bom petisco, sentou-se e ouviu a acusação e a defesa.

O lobo repetiu ao leão sua ladainha – ele estava sujando minha água de beber, apontando o coitado do cordeiro, que acreditando na justiça, argumentou – mas seu leão, como é que eu poderia sujar a água do lobo se ele estava bebendo rio acima e eu umas dezenas de metros abaixo? Ora, disse o lobo, se não foi você foi seu irmão, ou sua mãe ou seu pai. E o julgamento terminou com o leão comendo o melhor pedaço do cordeiro, comissão por ter se prestado à farsa do julgamento.

Por que me lembrei dessa fábula? Foi imaginando o nosso presidente Lula, aqui em Genebra, na Organização Internacional do Trabalho, diante do presidente suíço Couchepin, que defende o neoliberalismo com o entusiasmo e o apetite de um carnívoro. Lula dizendo para o interprete – conta aí pra ele que com as práticas comerciais arbitrárias e protecionismo agrícola não dá para se ter desenvolvimento e se sair da fome. E o suíço perguntando – o que foi que ele falou? Fome? Quem está com fome sou eu e se o seu Lula, que em Portugal é petisco, não mudar de disco, chamo o Bush para fazermos um julgamento.

É claro que sempre é bom um cordeiro dar o berro contra o lobo, mas dificilmente escapa do churrasco ou na melhor das hipóteses, da tosquia, se não for da OMC, do FMI. O que vai se fazer, é a lei da selva do neoliberalismo!
 

(07 de junho/2003)
CooJornal no 318
 


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch