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Rui Martins
MORTE DE SERGIO VIEIRA DE MELLO
PROVOCA CONSTERNAÇÃO
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Consternação em Genebra diante da morte, no atentado de Bagdá, daquele que
seria, sem dúvida, o futuro secretário-geral da ONU, o brasileiro Sergio
Vieira de Mello.
Coisa nunca vista nos corredores do Palácio das Nações de Genebra -
funcionários chorando ao serem informados da morte daquele que era
conhecido por eles e pelos jornalistas como Sergio, personalidade
simpática, competente, estimada, sempre disponível. Sergio Vieira de
Mello, depois do seu êxito como governador do Timor Leste, podia ser
considerado o mais carismático dos estadistas da atualidade. As bandeiras
de todos os países, hasteadas no caminho da entrada do Palácio das Nações,
estão a meio-pau, em sinal de luto.
Coincidentemente, a noticia chegou quando um grupo de jornalistas
portugueses em visita à Suíça, estava reunido com o embaixador português
Manuel Corte Real, que por diversas vezes se encontrou com Sergio Vieira
de Mello no Timor Leste, quando ainda eram tensas as relações com a
Indonésia. Das confidencias trocadas, se ressaltavam a extrema competência
do brasileiro e sua capacidade para o diálogo. Funcionário da ONU, desde a
juventude, tão logo terminado seu curso de filosofia, iniciado na
Universidade Católica de Friburgo e terminado na Sorbonne em Paris, Sergio
fez sua carreira no Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, onde logo
se destacou por aceitar as missões mais difíceis e por não ter medo de
correr riscos, fosse na África, nos conflitos étnicos, ou no sul do Líbano,
durante a ocupação da região pelos israelenses ou na ex-Iugoslavia.
Pode-se dizer que Sergio não temia o perigo como homem de ação nas regiões
em fogo – Timor Leste, mas também Kosovo, Bósnia, região dos grandes lagos
na África Oriental, Cambodjá, Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e o
Peru.
Filho de embaixador, Sergio não aceitou fazer carreira no Brasil, no
Itamarati, por haver na família Vieira de Mello uma mágoa com o tratamento
dispensado ao seu pai. Sergio preferiu fazer carreira na ONU, onde teria
chegado ao posto máximo não fosse o atentado de ontem, em Bagdá. Ainda no
começo dos anos 80, quando numa das primeiras entrevistas com Sergio
Vieira de Mello, em Genebra, ele resumia suas dificuldades e seu stress
como jovem comissário da ONU para refugiados – é extremamente difícil e
penoso, dizia, quando se tem de escolher entre milhares de refugiados, as
poucas centenas aceitas por alguns paéses.
Os jornais suíços de hoje dão títulos garrafais como A ONU decapitada, a
ONU ficou órfã, porque não era segredo para ninguém o desejo de Kofi Annan
indicar Sergio Vieira de Mello como seu sucessor. Embora alguns citem
críticas a Sergio de Mello por aceitar fazer a politica americana no
Iraque, numa entrevista transmitida pela radio suíça e gravada anteontem,
em Bagdá, o Alto Comissário da ONU em missão no Iraque, desde junho,
deixava bem claro que o Iraque deveria ser administrado por iraquianos e
que deveriam ser respeitados os interesses do povo iraquiano sob ocupação.
E falava em eleições iraquianas para o segundo semestre do próximo ano.
Refutando estar próximo dos EUA, Sergio criticava numa recente entrevista
ao jornal Tribuna de Genebra a repressão americana aos suspeitos de
terrorismo residentes nos EUA e o não respeito aos preceitos
internacionais de justiça, no caso dos prisioneiros de Guantanamo, tendo
pedido ao presidente Bush um tratamento correto a esses prisioneiros.
Ainda anteontem, Sergio falava para uma rádio suíça que parecia não haver
problemas com sua segurança, em Bagdá, mas desconhecia as intenções dos
terroristas de atacar a ONU, na impossibilidade de atacar os EUA. A
retirada dos funcionários estrangeiros da ONU de Bagdá para a Jordânia
reforça a posição francesa e alemã contrária a um respaldo dos
anglo-americanos pela ONU. E a questão da guerra e ocupação do Iraque
retorna ao centro dos debates. O atentado de ontem em Bagdá lembra o
atentado contra os fuzileiros navais americanos em Beirute e a resistência
à ocupação americana poderá levar a vietnamização da guerra. Em todo
caso, tanto a França como a Alemanha tinham advertido os EUA de que a
guerra ao Iraque poderia desencadear fatores incontroláveis.
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Sentido da palavra fraternidade.
Sergio Vieira de Mello, Rio de Janeiro, 1966
A noção da fraternidade na acepção de uma moral cristã do sentimento tem
como elementos fundamentais valores como: a liberdade, a justiça e a
caridade. A liberdade neste sentido, é absolutamente necessária como base.
A justiça e a caridade ( aqui sinônimo de fraternidade ) tem como origem
comum o valor da pessoa humana. Mas, enquanto a primeira procura definir,
determinar de uma maneira estrita os deveres que o respeito deste valor
nos impõe, a segunda concebe estes deveres sob a forma puramente afetiva
de uma tendência sentimental traduzindo-se por gestos filantrópicos.
A noção de fraternidade, no sentido de uma atitude social, implica
unicamente o conceito de justiça, de igualdade. Amar a humanidade e querer
não somente a solução temporária de suas misérias e de seus sofrimentos
morais, mas também sua dignidade. Por esta razão, a caridade perde um
pouco de sua utilidade em relação aos direitos de cada um juridicamente
definidos e garantidos.
Se a moral religiosa vê na fraternidade uma conseqüência da caridade, a
moral social apóia-se principalmente numa noção de justiça e de respeito
mais elevada e mais objetiva. É evidente, porem que mesmo assim a vida
social não pode esquecer o lado afetivo, a fraternidade liga-se a um ponto
de vista jurídico, mas também a um juízo de consciência. Quando a justiça
social ou econômica falha, temos como recurso o respeito da dignidade
humana, que pode se apresentar sob uma forma religiosa ou não, mas tem
como único fim a preservação da honra individual e coletiva.
Sem chegar, jamais ao ponto de negação próprio a um Nietzsche ou um Sade,
devemos procurar manter-nos no sentido de uma fraternidade duplamente
polarizada: 1) a caridade como revolta contra a injustiça 2) O respeito da
dignidade humana construtor de uma nova justiça universal, impossível de
se atingir com caridade somente.
Excluindo uma fraternidade do tipo militar que esconde geralmente
interesses puramente políticos, uma sociedade moderna precisa da
fraternidade para dominar as relações sociais complexas, principalmente no
domínio econômico e para manter um equilíbrio edificado sobre a paz e a
compreensão e não sobre o terror.
Sergio Vieira de Mello – 1966- Rio de Janeiro.
(21 de agosto/2003)
CooJornal
no 328