09/10/2003
Número - 335

 
Rui Martins



RICUPERO ACUSA – BRASIL SOFREU

DESINDUSTRIALIZAÇÃO E DESNACIONALIZAÇÃO



 

Rubens Ricupero, ex-ministro e ex-negociador brasileiro na Rodada do Uruguai do GATT, agora secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, apresentou seu relatório, em Genebra. E aproveitou para falar da política econômica brasileira, dos últimos dez anos, da época FHC. Se o relatório é crítico com relação ao impacto da globalização sobre os países em desenvolvimento, sua análise é também bastante crítica sobre o ex-governo que, segundo ele, desindustrializou e desnacionalizou o Brasil.

Com vocês a entrevista com Rubens Ricupero.

RN – Seu relatório faz uma analise geral, mas se considerarmos só o Brasil, principalmente da divulgação das estatísticas mostrando uma maior desigualdade na distribuição das riquezas?

Rubens Ricupero – Nesse particular, o relatório divulgado pela CNUCED (UNCTAD) explica a razão desse problema. Porque mostra que no curso dos últimos dez anos, o Brasil sofreu um processo de desindustrializaçao, isto é, passou a ter uma indústria menos importante na sua economia, não como ocorreu nos países ricos, que por um processo natural, a partir de um certo nível, se concentram mais nos serviços. No nosso caso foi um desindustrializaçao perversa, porque se fez na base do desemprego, da redução dos custos, sem que o nível per capita da população tenha aumentado. Por isso é que houve um aumento do desemprego. Hoje estamos com um desemprego de 13% no Brasil. Houve também uma queda na renda real das pessoas e estamos agora numa situação em que, de um lado os países asiáticos avançam e se industrializam mais, e do outro, países como o Brasil, Argentina e outros da América Latina estão perdendo a industrialização que tinham. E quando conservam é na base do desemprego, de reprimir e muito o número de empregados e de pagar salários muito baixos, muito insatisfatórios, sem que isso seja compensado, por desenvolvimento em outros setores. Porque o setor de serviços, é um setor que depende muito da renda da população. Hoje em dia no Brasil, as pessoas ganham tão pouco que não podem nem pagar o transporte. E é isso que explica a ligação entre o aumento da desigualdade e o fenômeno que nosso relatório mostra, que é a desindustrializaçao precoce.


RN – Ao mesmo tempo, um processo de desnacionalização, que talvez comprometa o governo atual...

Rubens Ricupero – O caso da desnacionalização com relação aa entrada de muitos capitais estrangeiros no setor de serviço, sobretudo telecomunicações e energia, tem outra natureza. Esse tipo de investimento de capital estrangeiro, depois de algum tempo começa a gerar uma pressão para a remessa de lucros e não é um tipo de investimento que crie uma capacidade de exportação, portanto de aquisição de dólares para pagar essas remessas de lucros acrescidas. Daí portanto a desvantagem, é mais uma pressão na balança de pagamentos. O melhor teria sido se esse capital tivesse vindo, não para comprar empresas já existentes no Brasil, mas para criar empresas em setores novos, produtos que o Brasil ainda não produz, e aí ser capaz de exportar mais o que hoje exportamos.

Mas isso houve muito pouco, a maioria foi a aquisição de empresas brasileiras e, muitas vezes, houve compressão para redução dos custos.


RN – A criação pelo Brasil de um grupo que agiu em Cancun poderá reforçar a posição brasileira no mercado internacional?

Rubens Ricupero – Acho que foi uma medida muito adequada, que o Brasil pode unir sua voz a de outros países muito expressivos, como a China, Índia, África do Sul e a maioria dos países da América do Sul. Isso nos dará maiores condições no prosseguimento das negociações, para obter uma maior abertura do mercado para os nossos produtos, sobretudo da agroindustria, onde o Brasil esta lutando, no momento, contra muitos obstáculos.


RN – O seu relatório é um tanto pessimista, pois não vê com bons olhos a globalização, a OMC. Sua posição é bem clara nesse sentido. Como vê o futuro do mundo? Vão aumentar as desigualdades?

Rubens Ricupero – No momento, infelizmente é essa a tendência. Não sou pessimista, pois acho que é preciso se ter ação, como teve o governo brasileiro em Cancun, para mudar a situação e reequilibrar esse quadro que está muito desequilibrado. A persistirem essas condições atuais, realmente não vejo uma perspectiva a curto prazo de uma melhoria.




(09 de outubro/2003)
CooJornal no 335


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch