06/11/2003
Número - 339

 
Rui Martins



UM ASPECTO POUCO COMENTADO DA
GUERRA CONTRA O IRAQUE



 

Existe um aspecto pouco comentado dessa guerra dos EUA contra o Iraque, que começa a fazer tantas vitimas. Foi um juiz francês que levantou, mesmo se depois houve desmentidos. O governo francês, que ficou contra os EUA para não se meter nessa guerra boomerang, está mesmo assim preocupado.

Muitos jovens das periferias das grandes cidades francesas, Paris, Lyon, Marseille, onde vivem a segunda e terceira geração de imigrantes vindos do norte da África, sumiram e foram se unir ao movimento extremista muçulmano. Segundo informações, fariam parte dessa internacional extremista da guerra santa contra o Ocidente.

Uma pequena volta para se entender o porque da revolta desses jovens. Nos anos 60, a França importou mão de obra argelina, marroquina, tunisiana e foi explorando esse pessoal, sem pensar que teriam filhos, em prédios de apartamentos sem qualquer preocupação social. O governo socialista deu a nacionalidade para os filhos desses imigrantes, mas não conseguiu acabar com a marginalidade em que viviam. Numa época de desemprego, quem tem nome árabe, tem muito mais dificuldade para encontrar emprego.

A revolta por essa situação tem criado delinqüentes, pivetes, parecidos com os das áreas urbanas de São Paulo e Rio, mas pregadores muçulmanos, fazendo mais ou menos o que fazem os evangélicos, conseguiram converter uma parte dessa moçada. Porem, entre esses pregadores, existem os da linha fundamentalista, da guerra santa, que considera nossa civilização como abominação e pecado. E seus seguidores são levados para campos de treinamento que antes eram no Afganistão. Uma parte deles esta agora lutando no Iraque contra os americanos.

Qual a preocupação francesa ? A de que quando os EUA saírem do Iraque, essa frente guerreira da jihad se desloque para a Europa. Esse um outro aspecto da guerra contra o Iraque, que os militares e republicanos americanos não viram ao pensarem que iriam dar um passeio pelo Oriente Médio.


(06 de novembro/2003)
CooJornal no 339


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch