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Rui Martins
UMA VISÃO DE DAVOS
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22.1.04
A Suíça vai gastar dez milhões de dólares com o Fórum Econômico Mundial,
numa cidade sitiada, cercada com arames farpados e sob a proteção de 6500
soldados e policiais. Mesmo assim, Davos perdeu o monopólio da discussão
dos temas mundiais
A partir de hoje e até domingo, a cidade de Davos, é uma cidade ocupada
por 6.500 soldados e policiais. Seu espaço aéreo foi fechado, helicópteros
asseguram uma vigilância constante e caças estacionados no aeroporto de
Zurique, armados com mísseis, estão prontos para decolar e derrubar
qualquer aparelho que desvie sua rota e tente sobrevoar a cidade. Mesmo
vôos de asas deltas e pára-quedas foram proibidos.
Dentro do bunker, onde estarão os grandes empresários do mundo e
detentores do poder, o criador do Fórum, Klaus Schwab, acena com o tema
deste ano - parceria para a segurança e prosperidade. Entre os debates
diários, alguns temas surpreendem - igualdade e paz, combate à malária, à
Aids, fratura numérica e poluição, dominantes e dominados, temas dignos do
outro fórum, o Social Mundial, que, desta vez, está ocorrendo na Índia.
Porque agora está evidente, o Fórum de Davos perdeu a primazia da
discussão dos temas mundiais e, vítima de uma polarização, já não tem a
mesma importância depois do sucesso do Fórum Social de Porto Alegre.
Mesmo com suas atuais tentativas de ampliar os debates, as questões da
distribuição das riquezas e das fraturas sociais, não mais lhe pertencem.
Davos, onde se concebeu o selvagem neoliberalismo, é agora o fórum
privilegiado dos detentores do poder e dos empresários do
neo-imperialismo. Os jornais suíços, que parecem mais interessados no
Fórum Social, reproduzem trechos de entrevistas com o francês José Bové,
considerando Davos um clube privado, que fala na abertura de mercados
mundiais, mas que se fecha, de maneira esquizofrênica, atrás de uma
poderosa proteção militar. Ironia da sorte, o debate globalizado dos
grandes temas mundiais em busca de um novo mundo possível é agora com o
movimento anti-Davos.
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O Fórum Econômico de Davos é um clube de grandes empresas onde os que têm
o poder de decisão fazem seus negócios e resolvem seus problemas, diz um
dos lideres do Olho Publico sobre Davos, fórum de oposição.
Dentro dessa lógica, nada normal que os EUA tenham vindo a Davos para
negociar a reconstrução do Iraque com parceiros de outros países, agora
que o monopólio americano dessa reconstrução se tornou difícil com a
resistência iraquiana. A presença do vice-presidente Dick Cheney é bem
sintomática, visto as recentes denuncias de suas ligações com grupos
econômicos premiados com os principais trabalhos de reconstrução.
Porem, apesar da hegemonia americana e da sua força de persuasão militar,
Dick Cheney teve de remoer as alfinetadas que lhe desfechou o presidente
iraniano Moamad Khatami, que rejeita a idéia ocidental da aldeia global,
contrario a uma fusão, mas apenas favorável a um dialogo entre os povos.
Porém, Kathame quer dialogo entre civilizações e culturas e não entre
pessoas, rejeitando como lhe sugeria um jornalista um encontro com Bush,
aproveitando para rejeitar as acusaçoes da posse de armas nucleares pelo
Ira.
A queda do dólar, a poderosa moeda, hoje ultrapassada pelo euro em favor
de compra, é também um dos temas do Fórum de Davos, que de uma maneira
geral, eh considerado como de importância menor que nos anos passados. Dos
contatos e conchavos, uma das poucas iniciativas positivas, em Davos, é a
do dialogo entre israelenses e palestinos, signatários da Iniciativa de
Genebra, com o apoio da ministra suíça das relações exteriores.
Na sua tentativa de mudar de imagem, o Fórum pediu a todos os patros,
empresários e chefes de Estado e governo a tirarem a gravata, para ser um
encontro informal e descontraído. Pura medida de fachada sem qualquer
possibilidade de ressonância nos métodos de crescimento econômico.
Embora haja um tema sobre desigualdades, digno do Forum Social, e sobre
remédios e Sida, a África praticamente não existe em Davos, uma região em
fase de aniquilação pela Aids e sobre a qual se diz que alguns grupos
econômicos estariam tentados em recolonizar.
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O Fórum Econômico de Davos termina sob uma constatação – os EUA não mudam
de tom e prosseguem no caminho condenado por muitos países europeus. O
vice-presidente Dick Cheney, no ultimo discurso importante do encontro,
reafirmou a doutrina guerreira americana, justificando a guerra
preventiva. Cheney falou numa responsabilidade do Ocidente face ao
terrorismo, justificando a guerra quando falha a diplomacia. E pediu uma
cooperação internacional para se intensificar essa luta, principalmente
dentro da OTAN.
Para os líderes europeus contrários às aventuras guerreiras que destruíram
o único país láico no Oriente Médio, instaurando o caos, e reforçando o
isalamismo integrista, esse discurso tem gosto amargo. Com essa ideologia,
não vai ser possível pacificar o Iraque. Diante da doutrina americana,
resta quase vão o discurso de ontem do secretário geral da ONU, Kofi Anna,
por uma cruzada diferente, uma cruzada contra a pobreza.
Se, no ano passado, os EUA deixaram claro, em Davos, sua disposição de
lançar a guerra contra o Iraque, priorizando a mentira da existência de
armas de destruição maciça, este ano, a plataforma de Davos é utilizada
para reforçar a visão belicista americana. Depois de ter sido a caixa de
ressonância do neoliberalismo, Davos corre o risco de endossar a teoria
guerreira dos grupos econômicos interessados no desenvolvimento
armamentista.
A surpresa deste ano em Davos foi que, apesar dos mais de dez milhões de
dólares investidos em segurança e policiamento, não houve nenhuma
tentativa de violência contra o Fórum Econômico. Isolado nos Alpes suíços,
o encontro parece ter se contraído e seus modismos correm o risco de se
restringirem apenas aos grupos participantes.
(06 de fevereiro/2004)
CooJornal
no 354