02/04/2004
Número - 362


 
Rui Martins



1º de abril


 

 Afinal o golpe militar de 64 foi no dia 31 ou no dia da mentira, este primeiro de abril?

Eu, pessoalmente, sigo o calendário que assinala hoje os 40 anos da queda de Jango Goulart e o início dos 20 anos de ditadura.

Lembro-me de que acabava de me formar em Direito pela faculdade da USP, do Largo de São Francisco, e que com meus colegas de republica de estudantes, acompanhávamos pelo rádio a tentativa de resistência, liderada por Leonel Brizola.

Todos nós jovens vivíamos a efervescência da campanha pelas reformas de base e líamos os jornais que apoiavam o governo, como Paratodos do PC, e Brasil Urgente, editado pela AP. Tínhamos livros e discos editados pelo Centro Popular de Cultura, assistíamos conferencias de Jacob Gorender no Instituto de Arquitetos de São Paulo e ficamos com medo de sermos presos, pois nossos nomes estavam lá.

Minha carreira no jornalismo começou, alguns meses depois, em setembro, e na redação do Estadão encontrei gente da oposição – Miguel Urbano Rodrigues, que era anti-salazarista e Vladimir Herzog, que iria alguns meses depois para Londres, na BBC, mas que ao retornar, acabou sendo morto pelo DOI-Codi em 75.

Depois de ter liderado o Encontro com a Liberdade, no teatro Paramount, em São Paulo, contra a censura na imprensa, fui demitido do Estadão, e, alguns meses depois, por ter aderido a uma greve de jornalistas fui demitido do cargo de Redator-Chefe da Redação de São Paulo da Última Hora- Rio.

Acabei escapando para Europa, com o apoio do governo francês, em agosto de 69. Fiquei em Paris até 80, e quando a maioria dos exilados começou a voltar, eu subi os Alpes, aqui na Suíça, onde vou ficando, mas onde a saudade de vez em quando aperta.

Aí está meu depoimento sobre o golpe de primeiro de abril de 64.


(02 de abril/2004)
CooJornal no 362


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch