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Rui Martins
SILÊNCIO CÚMPLICE DA
CRUZ VERMELHA INTERNACIONAL
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Para que serve a Cruz Vermelha Internacional, daqui de Genebra, se ao
constatar crimes e torturas em algum país, se fecha em copas e se limita a
enviar protestos e denúncias apenas aos responsáveis pelas violações dos
direitos humanos? Essa a questão que levantam alguns jornais suíços,
principalmente o Tribuna de Genebra, num editorial, diante do escândalo da
tortura de prisioneiros iraquianos, humilhados pelos militares da maior
nação do mundo.
Os médicos e especialistas da Cruz Vermelha Internacional tinham visitado
a prisão de Abu Graib, de onde saíram as fotos revoltantes, feitas pelos
próprios carrascos sádicos da coligação anglo-americana. A visita, em
fevereiro, constatou os abusos sobre os prisioneiros e uma cópia do
relatório foi enviada aos responsáveis americanos e ingleses, alertando
sobre as numerosas violações de direitos humanos.
O comando americano, Bush e Rumsfeld devem ter recebido cópia ou uma
síntese.
Porém, essas denúncias não seriam nunca transmitidas aos jornais e ao
público. E só foram publicadas porque a AFP conseguiu furar o bloqueio de
silêncio.
Ora, pergunta o Tribuna de Genebra, onde fica a sede da organização, calar
não é ser também culpado?
Em todo caso, essa mesma Cruz Vermelha Internacional também calou, durante
a Segunda Guerra Mundial, pois desde 1942, sabia da solução final contra
os judeus e das câmaras de gás nazistas. Tribuna de Genebra cita mesmo o
livro de um jornalista americano, David Rieff, A Humanitária em Crise,
onde se fala do silêncio cúmplice.
A direção da Cruz Vermelha afirma que o silêncio permite que a organização
possa visitar o meio milhão de prisioneiros em todo o mundo. Mas afinal,
qual o objetivo das visitas? O de preparar relatórios para ficarem
arquivados e só serem abertos dez ou vinte anos depois? A direção da Cruz
Vermelha diz que tinha alertado o comando da coligação anglo-americana e
que, se nada fosse feito, diria à imprensa.
Pura balela, como a de Bush e Rumsfeld dizendo que não sabiam de nada. Se
não fosse um simples soldado, revoltado com as fotos, denunciar as
torturas, e criar a bola de neve, ninguém ficaria sabendo, graças ao
gentleman agreement entre a Cruz Vermelha Internacional e os donos do
poder.
(21 de maio/2004)
CooJornal
no 369