21/05/2004
Número - 369

 
Rui Martins



SILÊNCIO CÚMPLICE DA  
CRUZ VERMELHA INTERNACIONAL


 

Para que serve a Cruz Vermelha Internacional, daqui de Genebra, se ao constatar crimes e torturas em algum país, se fecha em copas e se limita a enviar protestos e denúncias apenas aos responsáveis pelas violações dos direitos humanos? Essa a questão que levantam alguns jornais suíços, principalmente o Tribuna de Genebra, num editorial, diante do escândalo da tortura de prisioneiros iraquianos, humilhados pelos militares da maior nação do mundo.

Os médicos e especialistas da Cruz Vermelha Internacional tinham visitado a prisão de Abu Graib, de onde saíram as fotos revoltantes, feitas pelos próprios carrascos sádicos da coligação anglo-americana. A visita, em fevereiro, constatou os abusos sobre os prisioneiros e uma cópia do relatório foi enviada aos responsáveis americanos e ingleses, alertando sobre as numerosas violações de direitos humanos.

O comando americano, Bush e Rumsfeld devem ter recebido cópia ou uma síntese.

Porém, essas denúncias não seriam nunca transmitidas aos jornais e ao público. E só foram publicadas porque a AFP conseguiu furar o bloqueio de silêncio.

Ora, pergunta o Tribuna de Genebra, onde fica a sede da organização, calar não é ser também culpado?

Em todo caso, essa mesma Cruz Vermelha Internacional também calou, durante a Segunda Guerra Mundial, pois desde 1942, sabia da solução final contra os judeus e das câmaras de gás nazistas. Tribuna de Genebra cita mesmo o livro de um jornalista americano, David Rieff, A Humanitária em Crise, onde se fala do silêncio cúmplice.

A direção da Cruz Vermelha afirma que o silêncio permite que a organização possa visitar o meio milhão de prisioneiros em todo o mundo. Mas afinal, qual o objetivo das visitas? O de preparar relatórios para ficarem arquivados e só serem abertos dez ou vinte anos depois? A direção da Cruz Vermelha diz que tinha alertado o comando da coligação anglo-americana e que, se nada fosse feito, diria à imprensa.

Pura balela, como a de Bush e Rumsfeld dizendo que não sabiam de nada. Se não fosse um simples soldado, revoltado com as fotos, denunciar as torturas, e criar a bola de neve, ninguém ficaria sabendo, graças ao gentleman agreement entre a Cruz Vermelha Internacional e os donos do poder.


(21 de maio/2004)
CooJornal no 369


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch