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Rui Martins
FILHOS DE BRASILEIROS APÁTRIDAS
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DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA DA ASSEMBLÉIA GERAL DAS
NAÇÕES UNIDAS
PRINCÍPIO 3º
Desde o nascimento, toda criança terá direito a um nome e a uma
nacionalidade.
Caro Senador Cristóvam Buarque
Há dez anos, os emigrantes brasileiros são vítimas de uma injustiça - seus
filhos nascidos no Exterior não são mais brasileiros natos e ganham um
passaporte provisório. Itamar Franco e FHC nada fizeram para mudar essa
situação, mesmo porque emigrante não tem peso político, é um segmento da
grande massa da pobreza brasileira, que, desde o governo Collor, foi
tentar vida melhor no estrangeiro. Massa ignorada dentro de casa - como
prova o salário-micro que recebem, digno de um regime de semi-escravidão -
e esquecida quando emigra.
O momento não é mais de ilusões. Quem acreditava em Papai Noel na política
brasileira já caiu na realidade. Portanto, esta carta não tem por objetivo
tentar sensibilizá-lo sentimentalmente para uma situação de rejeição e
desinteresse de um País por seus filhos. Mas de enfatizar a injustiça e
mesmo o escárnio com relação a uma parcela da população brasileira, que,
ingenuamente, ainda continua a vestir sua camisa verde-amarela, a gritar
Brasil, quando, na verdade, já foi descartada. Coitados dos brasileiros
rejeitados que, com camiseta de Ronaldo, pensam fazer parte da grande
nação. Vão se sentir espoliados, quando tiverem seus passaportes retirados
ao chegarem aos 18 anos.
Junto com esta carta, seguem diversos textos de uma luta que venho
travando, muitas vezes sozinho, porque os consulados brasileiros minimizam
o problema e a maioria dos pais da diáspora brasileira desconhece o
problema.
Entre esses textos, o Primeiro Pedido ao Presidente Lula. Isso porque Lula
venceu no primeiro turno no Exterior. A carta chegou ao Frei Beto, que
passou ao José Dirceu, mas ninguém tem tempo para se lembrar dos
"paus-de-arara" do Exterior. Quanto mais de seus filhos.
Imagine, Senador, que o governo brasileiro, este e os anteriores, estão se
lixando quanto à preservação de nossa cultura e idioma no Exterior. Não
existe apoio à comunidade brasileira, enquanto todos os outros países
possuem programas especiais para manter o contato com seus cidadãos no
Exterior.
Não se trata apenas de dar a mesma cidadania aos filhos e mesmo netos de
seus emigrantes. Existe uma política de apoio cultural, de aprendizado da
língua. É o caso de Portugal, que envia professores, que tem deputados
representantes da comunidade no estrangeiro. O Brasil dá uma banana e,
aqui, em Berna, por exemplo, onde existe uma escolinha de português para
os brasileiros rejeitados, ela é financiada por um programa local de
integração com apoio benévolo de mulheres que, no Brasil, exerciam o
magistério.
Como parte do programa da desigualdade nacional de repartição de riquezas,
criou-se, em 1994, esse de se retirar das crianças da diáspora a
cidadania. Uma imbecilidade, porque essas crianças, das quais muitas
ficarão apátridas aos 18 anos, acabarão por encontrar outra pátria mais
hospitaleira e acolhedora. Falei em desigualdade, porque a aplicação dessa
lei também não se aplica a todos. Não se aplica, por exemplo, aos filhos
dos funcionários do Itamarati em função no Exterior e, provavelmente, aos
funcionários das grandes empresas brasileiras (existem ainda?). Por isso,
também, o corpo mole dos consulados e embaixadas. Afinal, a lei não é para
eles é para o zé povinho da emigração.
Falei dessa injustiça ao ministro da Justiça, Thomaz Bastos, que me
prometeu fazer alguma coisa. E me animei a pedir seu apoio porque fui
informado da criação de uma comissão no Congresso para estudar uma emenda
e resolver a questão.
Senador, peço sua interferência para haver vigilância. A questão é simples
- basta se retornar ao texto anterior da Constituição de 88, no qual se
dizia simplesmente, num parágrafo, serem também brasileiros natos os
filhos de pai ou mãe brasileiros, nascidos no Exterior, registrados no
Consulado mais próximo. Existe uma tendência para se complicar com
processo, com pedido judicial, com documentos adicionais. Isso precisa ser
evitado. Os emigrantes não têm dinheiro para gastar com processos de
naturalização, que podem se transformar numa mina de dinheiro para
escritórios de advocacia, fazendo valer a mesma regra vigente dentro do
País - a de que a só as classes privilegiadas têm acesso às vantagens
legais.
Senador, dê um apoio decidido e prático aos brasileirinhos até agora
rejeitados. Estabeleça uma linha de contato com as comunidades brasileiras
da diáspora para revigorar os laços culturais com o Brasil. Tente abrir os
olhos do Congresso e do governo para essa questão. Ajude-nos a tornar
prioritária sua solução.
Um grande abraço. Em nome desses tantos pais e brasileirinhos, Rui
Martins.
PS. Advogado ainda hoje registrado na OAB, mas jornalista de profissão,
fui exilado na França, nos anos de chumbo. Porém, e esse é outro absurdo,
minhas duas filhas nascidas durante a ditadura nasceram brasileiras natas,
como os filhos de outros tantos exilados. A perda da cidadania brasileira
para as outras crianças ocorreu em 94, já em plena democracia.
Este carimbo fica sem efeito, porque a portadora nasceu antes da Emenda
Constitucional n.º 3, de 09/06/94

(02 de julho/2004)
CooJornal
no 375