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Rui Martins
SERÁ PRECISO UM OUTRO
ENCONTRO COM A LIBERDADE?
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A ditadura ainda era recente no Brasil, em setembro de 1966, mas a censura
já se fazia sentir nos jornais. Por isso, um grupo de jornalistas decidiu
tomar praticamente o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, naquela época
dirigido por Adriano Campagnole, acusado de fazer o jogo dos militares, se
sujeitando às exigências sem exigir o livre exercício da liberdade de
imprensa.
Era ainda o começo dos anos de chumbo. Castelo Branco era soft, comparado
com os ditadores que viriam a seguir.
Eu e Ivan de Barros Bella, ambos do Estadão, propusemos numa plenária do
Sindicato, até ali reunião simples, rotineira, que se formasse uma
Comissão pela Liberdade da Imprensa. Previamente, tínhamos procurado apoio
com Narciso Kalli, David Reis, Audalio Dantas e outros, cujos nomes me
escapam no momento. Mas não éramos muitos, não. O suficiente, naquela
noite, para termos maioria e conseguirmos criar a Comissão. E obtivemos da
mesma assembléia, onde tínhamos maioria, que poderíamos utilizar a sede do
Sindicato para a necessária mobilização da classe. Ainda naquela noite,
decidimos que a Comissão pela Liberdade de Imprensa organizaria um
Encontro com a Liberdade e elegemos cinco companheiros para concretizar o
evento.
Na manhã seguinte, lá estamos na sede do Sindicato, usando telefones e
mimeógrafos para o Encontro com a Liberdade. Foi acertada a reunião, que
deveria ser popular, no teatro Paramount, da Brigadeiro Luiz Antonio, que
ficaria famoso por ter sido o palco dos festivais de música brasileira,
onde se revelaram Chico Buarque e Vandré.
Não me lembro exatamente, neste momento, de quais eram os participantes da
mesa. Junto de mim, estava Mario Martins, que, embora com o mesmo
sobrenome, não era meu parente, só em ideais e na luta contra a ditadura.
O encontro, em dezembro, ficou com o teatro abarrotado de jovens. A UEE
fechou conosco o apoio e universitários paulistanos compareceram em peso.
Julio de Mesquita Neto, do jornal no qual eu começa e trabalhava, enviou
um telegrama de apoio à luta contra a censura e cerceamento da imprensa.
Quando acabei de ler o telegrama, uma parte do auditório aplaudiu, mas a
maioria, mais radical, vaiou. A notícia publicada, no dia seguinte no
Estadão selou o destino de uma possível frente comum. Foram divisões como
essa, compreensíveis, que impediram uma luta melhor organizada contra a
ditadura. Mas é verdade, não passávamos de jovens jornalistas,
entusiasmados com a luta mas completamente inconseqüentes. O mecanismo da
repressão logo iria começar a colher os mais afoitos, enquanto outros
seriam obrigados a partir.
Me lembro do Encontro com a Liberdade porque correm rumores de um novo
tipo de amordaçamento, mais sutil, porém, que poderá ser irreversível por
prever um mecanismo legal de controle, aparentemente justo e normal.
Minha vivência como jornalista e do que tenho sabido de outros paises,
nesta minha longa presença aqui na Europa, mostram que, quando um governo
quer mexer na lei de imprensa ou cria mecanismos ou conselhos de imprensa,
não é para ampliar a liberdade, mas para canalizá-la, fragmentá-la,
enfraquecê-la, enfim, tornar mais fácil seu controle.
O Brasil é hoje um dos países com imprensa mais livre no mundo. Uma lei
muito superior à dos franceses ou dos suíços. Foi com essa imprensa livre
que se derrubou Collor e que se criou o movimento de opinião pela Diretas
e que as revistas Veja e Isto É publicaram as denúncias, na época da morte
de Herzog, contra torturas, abrindo o caminho para a abertura política e
redemocratização.
Pelo que li, a criação dos conselhos é para melhorar a ação dessa
imprensa, que, no momento, favorece os grupos que controlam o setor. É
isso? Mas surge aí um paradoxo - o governo Lula aceita compactuar com
FMI, com as multinacionais, se sujeita às leis comerciais da OMC, mas acha
que o liberalismo no mundo da imprensa é excessivo? Vamos ter
imprensa com participação estrangeira, e só os jornalistas é que terão um
código de conduta semelhante ao da Ordem dos Médicos e Advogados? Sim, mas o Conselho de Jornalistas
será dirigido por jornalistas? E daí? Jornalistas é incorruptível?
Acabo de ver um filme agora, aqui no festival de Locarno, mostrando como a
imprensa americana fez o jogo dos democratas, nos EUA, tentando criar um
impeachment contra Clinton, em duas situações no caso Whitewater e no caso
Monicagate. Sem se esquecer que os jornalistas americanos caucionaram a
mentira de Bush, no caso das armas de destruição de massa, justificativa
da invasão e atual ocupação do Iraque.
Não teriam sido os recentes escândalos com pessoas próximas do governo que
teriam criado a idéia do Conselho de Jornalistas, para tirar a
transparência?
Com esses receios me surgiu a idéia de um novo Encontro com a Liberdade,
no mesmo Teatro Paramount, se ele existe ainda. Se não for para uma
denúncia da arapuca, para ser um debate franco entre favoráveis e
contrários. Repetindo Voltaire, mesmo se não concordo com os que defendem
os conselhos, defenderei até aqui no Norte da Europa (parodiando o Barão
de Itararé), o direito de serem contra a liberdade de imprensa.
Outra coisa, se vocês toparem o Encontro com a Liberdade, estarei no
começo de outubro no Brasil e terei o máximo prazer em participar. Em 66,
eu era o jovem ao lado dos velhos. Fica a bola com a nova geração.
(13 de agosto/2004)
CooJornal
no 381