13/08/2004
Número - 381

- Atentado em Israel
- Bush, o incendiário
- Bye bye Blair
- Convenção declara guerra ao cigarro
- Crianças não!
- E agora, Sr. Bush?
- Essas fotos nós já vimos
- Fahrenheit 9/11
- Filhos de brasileiros apátridas
- Forum social suíço
- Knowhow contra aids
- Lepra: o fim da maldição
- Maria de Buenos Aires
- Ministro da justiça promete
- Morte de Sergio Vieira de Mello
- My sweet lord
- Novos membros da UE
- O cowboy Bush
- O espectro de Bin Laden
- O leão, o lobo e o cordeiro
- O silêncio cúmplice da Cruz Vermelha internacional
- Prisioneiros sem estatuto jurídico
- Ratazana Mickey
- Relator da ONU elogia Lula
- Ricúpero acusa
- Resistente iraquiano
- Roleta russa do Vaticano
- Uma visão de Davos
- Vieira de Melo na direção da Onu?
- Vitória da extrema direita na Suíça
- 1º de abril

 
Rui Martins



SERÁ PRECISO UM OUTRO
ENCONTRO COM A LIBERDADE?

 

A ditadura ainda era recente no Brasil, em setembro de 1966, mas a censura já se fazia sentir nos jornais. Por isso, um grupo de jornalistas decidiu tomar praticamente o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, naquela época dirigido por Adriano Campagnole, acusado de fazer o jogo dos militares, se sujeitando às exigências sem exigir o livre exercício da liberdade de imprensa.

Era ainda o começo dos anos de chumbo. Castelo Branco era soft, comparado com os ditadores que viriam a seguir.

Eu e Ivan de Barros Bella, ambos do Estadão, propusemos numa plenária do Sindicato, até ali reunião simples, rotineira, que se formasse uma Comissão pela Liberdade da Imprensa. Previamente, tínhamos procurado apoio com Narciso Kalli, David Reis, Audalio Dantas e outros, cujos nomes me escapam no momento. Mas não éramos muitos, não. O suficiente, naquela noite, para termos maioria e conseguirmos criar a Comissão. E obtivemos da mesma assembléia, onde tínhamos maioria, que poderíamos utilizar a sede do Sindicato para a necessária mobilização da classe. Ainda naquela noite, decidimos que a Comissão pela Liberdade de Imprensa organizaria um Encontro com a Liberdade e elegemos cinco companheiros para concretizar o evento.

Na manhã seguinte, lá estamos na sede do Sindicato, usando telefones e mimeógrafos para o Encontro com a Liberdade. Foi acertada a reunião, que deveria ser popular, no teatro Paramount, da Brigadeiro Luiz Antonio, que ficaria famoso por ter sido o palco dos festivais de música brasileira, onde se revelaram Chico Buarque e Vandré.

Não me lembro exatamente, neste momento, de quais eram os participantes da mesa. Junto de mim, estava Mario Martins, que, embora com o mesmo sobrenome, não era meu parente, só em ideais e na luta contra a ditadura.

O encontro, em dezembro, ficou com o teatro abarrotado de jovens. A UEE fechou conosco o apoio e universitários paulistanos compareceram em peso. Julio de Mesquita Neto, do jornal no qual eu começa e trabalhava, enviou um telegrama de apoio à luta contra a censura e cerceamento da imprensa. Quando acabei de ler o telegrama, uma parte do auditório aplaudiu, mas a maioria, mais radical, vaiou. A notícia publicada, no dia seguinte no Estadão selou o destino de uma possível frente comum. Foram divisões como essa, compreensíveis, que impediram uma luta melhor organizada contra a ditadura. Mas é verdade, não passávamos de jovens jornalistas, entusiasmados com a luta mas completamente inconseqüentes. O mecanismo da repressão logo iria começar a colher os mais afoitos, enquanto outros seriam obrigados a partir.

Me lembro do Encontro com a Liberdade porque correm rumores de um novo tipo de amordaçamento, mais sutil, porém, que poderá ser irreversível por prever um mecanismo legal de controle, aparentemente justo e normal.

Minha vivência como jornalista e do que tenho sabido de outros paises, nesta minha longa presença aqui na Europa, mostram que, quando um governo quer mexer na lei de imprensa ou cria mecanismos ou conselhos de imprensa, não é para ampliar a liberdade, mas para canalizá-la, fragmentá-la, enfraquecê-la, enfim, tornar mais fácil seu controle.

O Brasil é hoje um dos países com imprensa mais livre no mundo. Uma lei muito superior à dos franceses ou dos suíços. Foi com essa imprensa livre que se derrubou Collor e que se criou o movimento de opinião pela Diretas e que as revistas Veja e Isto É publicaram as denúncias, na época da morte de Herzog, contra torturas, abrindo o caminho para a abertura política e redemocratização.

Pelo que li, a criação dos conselhos é para melhorar a ação dessa imprensa, que, no momento, favorece os grupos que controlam o setor. É isso? Mas surge aí um paradoxo - o governo Lula aceita compactuar com FMI, com as multinacionais, se sujeita às leis comerciais da OMC, mas acha que o liberalismo no mundo da imprensa é excessivo? Vamos ter imprensa com participação estrangeira, e só os jornalistas é que terão um código de conduta semelhante ao da Ordem dos Médicos e Advogados? Sim, mas o Conselho de Jornalistas será dirigido por jornalistas? E daí? Jornalistas é incorruptível?

Acabo de ver um filme agora, aqui no festival de Locarno, mostrando como a imprensa americana fez o jogo dos democratas, nos EUA, tentando criar um impeachment contra Clinton, em duas situações no caso Whitewater e no caso Monicagate. Sem se esquecer que os jornalistas americanos caucionaram a mentira de Bush, no caso das armas de destruição de massa, justificativa da invasão e atual ocupação do Iraque.

Não teriam sido os recentes escândalos com pessoas próximas do governo que teriam criado a idéia do Conselho de Jornalistas, para tirar a transparência?

Com esses receios me surgiu a idéia de um novo Encontro com a Liberdade, no mesmo Teatro Paramount, se ele existe ainda. Se não for para uma denúncia da arapuca, para ser um debate franco entre favoráveis e contrários. Repetindo Voltaire, mesmo se não concordo com os que defendem os conselhos, defenderei até aqui no Norte da Europa (parodiando o Barão de Itararé), o direito de serem contra a liberdade de imprensa.

Outra coisa, se vocês toparem o Encontro com a Liberdade, estarei no começo de outubro no Brasil e terei o máximo prazer em participar. Em 66, eu era o jovem ao lado dos velhos. Fica a bola com a nova geração.


(13 de agosto/2004)
CooJornal no 381


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch