|
Rui Martins
Jornalista revela como é a Folha por dentro
|
 |
Conheci o jornalista Aureliano Biancarelli, quando vivia em Paris. Jovem
competente, estudioso e batalhador, fazia um curso de mestrado em
jornalismo. De volta ao Brasil, trabalhou em diversos jornais até
ingressar na Folha, de onde foi demitido recentemente, por telefone como
conta, no seu depoimento que segue abaixo.
Essa triste experiência de desrespeito não foi vivida só pelo Biancarelli.
Minha demissão da CBN foi igual e tantos outros poderiam contar
experiências com ligeiras variantes.
Nossa profissão tem sido aviltada, jornais fecham ou jogam na rua dezenas,
centenas de profissionais, humilhados e obrigados a tomar outro rumo. O
depoimento de Aureliano Biancarelli é importante porque sintetiza uma
situação de desrespeito vivida, uma ou várias vezes, pela quase totalidade
dos profissionais.
O grande público não sabe, mas os salários da categoria são baixos, muitos
jornalistas recebem ninharias como frilas de jornais importantes mas
péssimos patrões. O clima nas rádios é ainda mais constrangedor.
Convido-os a lerem o depoimento de Aureliano Biancarelli sobre sua
experiência na Folha.
Grande abraço, Rui Martins.
Jornalista Aureliano Biancarelli apresenta carta sobre a Folha de S.Paulo
O jornalista Aureliano Biancarelli é parceiro da OBORÉ na divulgação das
mais importantes ações na área da saúde, além de integrante do Conselho de
Orientação Profissional do Projeto Repórter do Futuro. No último corte da
Folha de S. Paulo, jornal onde trabalhava há 15 anos, Aureliano foi
demitido, por celular e sem justa causa, mesmo sendo o principal repórter
da área de saúde. O jornalista entregou a carta abaixo reproduzida no
momento da sua homologação. Vale a pena ler para entender melhor a lógica
que rege uma das maiores empresas de comunicação do Brasil.
"No momento desta homologação, quero deixar registradas as seguintes
ressalvas:
1 - Estabilidade por aposentadoria
De acordo com cálculos feitos pelo Sindicato dos Jornalistas e advogados
trabalhistas, estou a menos de um ano do meu direito a uma aposentadoria
proporcional. Segundo a cláusula 20 da Convenção Coletiva de Trabalho, por
eu ter mais de sete anos de trabalho na mesma empresa, tenho assegurado a
permanência no emprego por mais um ano. Logo, tenho direito a uma
reintegração ao trabalho por esse período, ou a uma indenização pelo
descumprimento desse direito.
2 - Estabilidade pelo período de férias
Também fui demitido antes que se completasse o período de estabilidade de
um mês posterior ao final das minhas férias. A empresa deverá me indenizar
por isso.
3 - Horas extras
O contrato de sete horas (cinco horas mais duas extras) nunca foi
cumprido. A média de horas trabalhadas, no geral, passava das nove horas
por dia. Muitas vezes, o trabalho era completado em casa, fora do horário
de serviço. Incontáveis vezes levei um lap-top nas folgas de final de
semana, trabalhando depois que meus filhos dormiam. Tenho testemunhas que
podem comprovar essas situações.
4 - Dupla jornada em viagens
Participei da cobertura de um grande número de congressos e eventos fora
de São Paulo e fora do país. Em todos eles, a jornada de trabalho era
dobrada, já que os seminários aconteciam durante todo o dia e as matérias
eram escritas no início da noite. A Folha nunca recompensou, com folgas ou
pagamentos, esse trabalho extra. Posso anexar as matérias que escrevi como
enviado especial nesses últimos cinco anos.
5 - Representando a empresa
Participei, como representante da Folha de S.Paulo, de dezenas de debates,
mesas-redondas e palestras, geralmente sobre o tema saúde. Nunca fui pago
por essas atividades, geralmente realizadas sem prejuízo do meu trabalho
diário. Lembro que, ao falar como representante da empresa, estava
assumindo uma responsabilidade muito maior que aquela atribuída à minha
função de repórter. Posso apresentar uma série de atestados que comprovam
essa minha participação.
6 - Publicações que divulgaram a Folha
Como repórter na área da saúde, fui convidado a escrever um livro sobre o
tema para uma coleção da Editora Brasiliense. Fotógrafos da Folha, fora do
expediente, registraram os personagens do livro. O trabalho resultou numa
exposição que percorreu dezenas de espaços e foi vista por mais de 500 mil
pessoas. No painel de abertura, a Folha aparece como uma das instituições
que apoiavam a exposição, ganhando grande visibilidade. Nunca pedi, nem me
foi oferecido, qualquer pagamento por esse trabalho. Também escrevi, como
repórter da Folha, textos que integram vários livros e revistas. Nada
recebi por isso, mas o nome da Folha foi
devidamente destacado.
7 - Direitos autorais
Muitas das matérias que escrevi para a Folha foram publicadas também no
jornal Agora, da mesma empresa. Da mesma forma, muitas das reportagens,
especialmente para a página dominical de Saúde, foram publicadas por
dezenas de outros jornais.
Outros danos sofridos pela demissão:
1 - Demissão pelo celular
Fui informado que seria demitido por meio de um recado no celular, no
primeiro dia de férias que passaria com as minhas filhas. Como estava em
férias, seria demitido no retorno, dizia o recado, o que de fato
aconteceu. A atitude da empresa, na qual trabalhava havia 15 anos, além de
desrespeitosa, destruiu qualquer possibilidade de permanecer com meus
filhos, já que não havia mais clima para férias. Retornei a São Paulo no
dia seguinte preocupado com um novo emprego.
2 - Desrespeito à lei dos planos de saúde
Todos os colegas demitidos tiveram que devolver a carteira do convênio
médico da empresa no mesmo dia. Se fossem atropelados na volta para casa,
estariam sem a proteção de qualquer plano. No entanto, a lei dos planos de
saúde diz que, ao deixar uma empresa cujo plano empresarial também conta
com a participação do empregado, ele terá direito a permanecer no plano
pelo período de seis meses a dois anos. A própria empresa Folha, em mais
de uma reportagem, orientou os leitores nesse sentido. Advertiu, por
exemplo, que era obrigação da empresa e do plano de saúde, logo após a
demissão, informar ao segurado que ele tinha a opção de permanecer no
plano empresarial por esse período. A Folha e a Marítima (seguradora
responsável pelo plano da empresa) ignoraram a lei, "escondendo" esses
direitos. Para garantir um mínimo de segurança para mim e meus
dependentes, tive de pagar R$ 1.200,00 a um escritório de advocacia, que
obteve liminar garantindo minha permanência, e a de meus quatro
dependentes, por mais seis meses ou um ano no plano.
3 - Desrespeito à identidade do jornalista
A empresa prometeu manter por 15 dias uma mensagem nos seus computadores,
informando o novo endereço de e-mail do funcionário despedido. Não fez
isso. Também cortou, sem avisar (pelo menos no meu no caso), o e-mail UOL
que mantinha no computador de casa, e que também era usado pelas minhas
fontes e contatos de trabalho. Desta forma, além de despedir os
jornalistas sem justa causa, a empresa cortou a possibilidade de contatos
desses profissionais com suas fontes, amigos e empresas, indispensáveis
nesse momento em que se busca um novo emprego.
4 - Projeto destruído
A empresa oferece um período de "licença" remunerada de acordo com o tempo
de serviço do profissional. A intenção é permitir e incentivar o
jornalista a se reciclar ou investir em outras áreas, seja escrevendo um
livro ou estudando uma língua. Trata-se de um benefício que a Folha
oferece por iniciativa própria e que revela a maturidade da empresa. No
dia 31 de julho passado, ao completar 15 anos na empresa, eu passaria a
ter direito a um período de quatro meses. Já tinha me preparado para uma
pesquisa sobre as condições de vida do paulistano, que poderia se
transformar em livro ou em uma série de matérias. É evidente que a empresa
levou esse fato em consideração, jogando por terra sua própria política,
os projetos dos jornalistas e, naturalmente, reduzindo gastos. A Folha não
tinha e não tem nenhuma obrigação de oferecer tal benefício, mas ao
demitir jornalistas nesse direito, provoca sérios danos morais.
5 - Punição à verdade
A Folha sempre se orgulhou de manter uma sessão onde reconhece os erros
que cometeu. Atitude de primeiro mundo. A diferença é que, ao reconhecer
que errou, o jornalista é punido com uma queda na sua avaliação (em
jornais como Washington Post, por exemplo, jornalistas que reconhecem seus
erros e os corrigem, são bem vistos). Na Folha, diante da ameaça de
sanção, os jornalistas tentam esconder seus erros. Um controle de
qualidade, que conta os erros de todos os tipos - contagem posterior à
publicação, não uma checagem anterior à publicação- resulta num boletim
bimensal onde os jornalistas são humilhados quando não se enquadram nos
manuais da Folha. Por exemplo, uma mulher entrevistada terá que ser citada
pelo seu sobrenome, mesmo que seja Leão ou Pinto. Citá-la pelo primeiro
nome, custará um erro e uma queda na avaliação. Aqueles com melhor
pontuação, com os textos mais pasteurizados, são premiados no final do ano
com viagens para a Europa e os EUA. Os que ousam, são punidos.
5 - Dano moral aos excluídos
Desde que entrei na Folha, em 1989, sempre trabalhei com temas pouco
tratados na mídia. Foi graças ao meu trabalho, que os doentes de Aids
começaram a aparecer na mídia, e que a
discriminação foi aos poucos reduzida. Um texto publicado pela Revista da
USP, assinado por mim, anos atrás, mostra como a Folha interferiu de forma
fundamental na defesa e na auto-estima dos doentes de Aids. Minhas
matérias sempre trataram com excluídos, desde os doentes que não recebiam
remédios do governo, até a importância de facilitar as adoções de
crianças, o respeito pelos direitos dos gays e lésbicas, a saúde da
mulher, a sexualidade dos adolescentes, a discriminação dos negros nos
serviços de saúde, a sobrecarga dos médicos, etc. Com a minha demissão, a
Folha apagou a visibilidade que, mesmo com dificuldade, esses excluídos
vinham conseguindo no principal jornal do país.
Os danos morais, nesse caso, não se limitam à minha pessoa. Ao me demitir,
na melhor fase de minha produção e com uma rede de contatos em todo o
Brasil, a Folha abandona milhões de pessoas que tinham a mídia como
aliada. Sei que pelo menos 30 cartas chegaram ao Painel do Leitor e ao
Ombusdman protestando contra as demissões e citando o meu nome. O próprio
Ombudsman escreveu dizendo que o leitor estava sendo desrespeitado ao não
se informado das demissões e que tal fato resultaria em queda de
qualidade. A Folha publicou apenas uma das cartas de protesto. Mas deu
espaço a supostos leitores que defendiam a empresa alegando que o patrão
manda embora quem quer e que não deve explicações aos leitores. Essa regra
pode valer para metalúrgicas ou fábrica de vassouras, por exemplo, mas não
para um jornal que está no centro dos debates nacionais.
Conclusão
Se a empresa quer jogar por terra seu suposto papel social, é problema
dela. Como produto, a decisão caberá ao leitor decidir. Mas ao
desrespeitar seus profissionais, que ao longo de décadas se dedicaram a
formar uma imagem de credibilidade do jornal, ela deve ser
responsabilizada pelos danos morais que está causando."
Aureliano Biancarelli
(18 de setembro/2004)
CooJornal
no 386