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Rui Martins
Demissão política no caso Paulo Maluf
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"É verdade que, em outubro de 2001, numa viagem ao Brasil fui alertado
cordialmente
por um colega, que na verdade teria sido um homem de recados, para
suspender
meus boletins sobre as contas de Maluf. Respondi também cordialmente
que não tivera medo da ditadura e não teria de Maluf".
Caros amigos:
Uma trajetória como a percorrida pelo jornalista Rui Martins dignifica a
nossa profissão,
dá um enorme sentido às atitudes de resistência nesta nossa tão velha e ao
mesmo tempo
nova América Latina. Peço a gentileza de uma leitura atenta desta mensagem
por ele enviada.
Grato,
Carlos Aranha
Caro Carlos Aranha
faz mais de dois anos, você noticiou minha demissão da CBN relacionando-a
com pressões de Maluf.
Sua análise rapidamente repercutiu, seguindo-se noticiários no
Comunique-se e no Observatório da Imprensa, Revista da Imprensa, mais os
telegramas de Walter Salles e Frei Beto e o grande número de jornalistas
que assinaram e apoiaram um manifesto em meu favor.
Hoje à noite, fazendo uma pesquisa sobre Maluf no site da televisão suíça
TSR, encontrei um despacho do correspondente dessa televisão em São Paulo,
naquela época, no qual Maluf citava o jornal Tribuna de Genebra e acusava
esse jornal de ter ligações com um representante da esquerda brasileira.
Era esse o elo que me faltava na compreensão de minha demissão - o
representante da esquerda brasileira, segundo o artigo, era eu. Pena eu
não ter lido, naquela época, esse noticiário, pois teria entendido melhor
minha demissão.
É verdade que, em outubro de 2001, numa viagem ao Brasil fui alertado
cordialmente por um colega, que na verdade teria sido um homem de recados,
para suspender meus boletins sobre as contas de Maluf. Respondi também
cordialmente que não tivera medo da ditadura e não teria de Maluf.
E, então, logo depois de meu retorno à Suíça, no dia 25 de fevereiro 2002,
fui demitido, sob pretexto de economia, logo refutado pelo site
Comunique-se que falava em contratações.
Como afirmei para Comunique-se, como lhe escrevi no meu Email para Essas
Coisas e como falei numa entrevista para a Rádio Nederland, nunca tive
elementos para provar ter sido uma demissão política. É verdade que, em
conversa telefônica com outros colegas, me afirmaram ter havido
participação direta de Heródoto Barbeiro nessa demissão. Chegaram a me
contar que, depois de um de meus boletins sobre as contas de Maluf, o
ex-prefeito de São Paulo, que estava na linha ao vivo, respondeu aos
brados de "mentiroso, mentiroso", sem que eu pudesse responder, pois minha
ligação tinha sido cortada depois de ter dado minha assinatura - Rui
Martins, direto da Europa para a CBN.
Reconfortado pelos colegas, que se manifestaram em meu favor pelo site
Comunique-se, e pela corrente de ouvintes, que se formou e divulgou um
manifesto, cujos textos de introdução eram do cineasta Walter Salles, de
Frei Beto e o seu artigo O Caso Rui Martins, publicado no Correio da
Paraíba, evitei até hoje qualquer pronunciamento a respeito.
Ora, nesses três anos que se passaram (meus primeiros boletins sobre as
contas de Maluf foram em agosto de 2001, que deram origem a reportagens de
meu colega suíço Jean-Noel Cuenod, na Tribuna de Genebra, uma delas, com
meu nome, citada e mostrada no primeiro Forum Social de Porto Alegre pelo
prefeito de Genebra Manuel Tornare. Não se pode esquecer que foi a Tribuna
de Genebra quem deu credibilidade às denúncias junto à justiça suíça)
minhas informações se mostraram verdadeiras e, neste último ano, acabaram
sendo repercutidas por toda a imprensa. Entende-se: Maluf perdera sua
importância, o quadro político mudara e mesmo seus antigos protetores
participaram da malhação geral.
Decidi sair hoje do longo silêncio, depois da exclusão forçada que me
privou do acesso a milhões de ouvintes e de um salário, para que, enfim, a
história mal contada de minha demissão seja tirada a limpo. Punido por ter
contado a verdade, desejo apenas uma coisa - ser reabilitado e ser a pedra
de escândalo para os que me silenciaram.
Um grande abraço. Conto com você para levar para a grande imprensa este
meu recado.
Rui Martins, ex- CBN.
(23 de outubro/2004)
CooJornal
no 391