20/11/2004
Número - 395


 
Rui Martins



SUÍÇA TEME O EFEITO HOLANDA

 

Paranóia ou temor legítimo? A Suíça tem medo de que islamitas fanáticos pratiquem atentados e que a extrema-direita se aproveite para provocar confrontos contra a população árabe. 40 deputados federais assinaram uma petição, que poderá receber hoje ainda mais assinaturas, pedindo ao governo para adotar medidas de segurança e vigilância junto aos imãs que pregam uma leitura literal do Corão.

Essa preocupação é desnecessária, segundo o líder da comunidade árabe de Genebra, e se tornou um prato cheio para o Partido do Povo, cuja campanha eleitoral foi nitidamente racista. Entretanto, mesmo os que condenam todas as formas de exclusão da população de origem árabe, sabem haver um risco latente, não só aqui na Suíça, país até agora tão tranquilo como era a Holanda, mas em toda Europa. Os milhões de muculmanos, que chegaram com a imigração, são na quase totalidade moderados e buscam uma integração, porém, bastariam algumas centenas para colocar em perigo todo o atual equilíbrio.

Ora, vive aqui em Genebra, o líder carismático da juventude muçulmana, Tarik Ramadan. Nos seus contatos com a imprensa, Tarik assume sempre posições moderadas e contrárias aos excessos dos fundamentalistas. Entretanto, num livro que acaba de ser publicado, uma jornalista denuncia Tarik, como ponta de lança islamita. Com efeito, seu irmão, também aqui em Genebra, Hani Ramadan, foi demitido do ensino público por ter defendido, no jornal Le Monde, o apedrajamento das mulheres adúlteras, segundo o Corão. E ambos, são filhos de um dos criadores do movimento internacional Irmãos Muçulmanos, considerado a base do movimento fundamentalista nos diversos países islamitas.

Para reforçar o receio suíço, dois imãs, um em Basiléia e outro em Zurique fizeram declarações que legitimam a violência pelos maridos contra suas mulheres, autorizada pelo Corão, e o imã, de Basiléia, numa revista suíça afirmou textualmente que não pode ser contra o apedrejamento das mulheres adúlteras “porque essa punição faz parte da lei islâmica”.

É ainda possível se enquadrar nos preceitos laicos da cultura européia os que justificam costumes religiosos condenáveis? A imprensa suíça, que procurou analisar a questão, reconhece ser um terreno minado um verdadeiro ninho de abelhas.



(20 de novembro/2004)
CooJornal no 395


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch