29/01/2005
Número - 405

 
Rui Martins



Forum de Davos surpreende com

linguagem contra fome e miséria

 

Será que as campanhas das ONGs anti-globalização converteram os donos do forum de Davos? A linguagem de Davos surpreende ao tratar da solidariedade, do combate contra a fome e miséria, assim como de um desenvolvimento sustentável. Trechos dos comunicados oficiais deste ano de Davos, poderiam ser confundidos com o discurso de Lula, que irá a Davos depois de amanhã.

Teria se convertido ou quer dar mostras de contrição? Uma leitura da imprensa suíça e européia sobre o Forum de Davos, que começou e onde esteve dia 18, o presidente Lula, revela Davos com uma linguagem e uma temática mais próximas dos bons sentimentos, que do neo-liberalismo. Os próprios comunicados oficiais de Davos surpreendem e parecem ter se inspirado nos comunicados de ONGs anti-globalização. Se Davos não se converteu, será que perdeu o fôlego?

“A comunidade financeira não acentua convenientemente o investimento responsável”, “as empresas não sabem prever as medidas capazes de acabar com a Aids”, “eliminar a fome e a pobreza é uma prioridade” dizem alguns comunicados oficiais de Davos, capazes de concorrer com o discurso do petista Lula.

Fora isso, Davos se preocupa com a deterioração do eco-sistema do planeta, confirmado por cientistas, e provavelmente tentará, com muito tato e de maneira indireta, convencer os EUA a colaborar com o Protocolo de Kyoto e com as medidas capazes de reduzir os sofrimentos do planeta. Bem no estilo do professor de Desenvolvimento Sustentável Jeffrey D. Sachs, do Instituto da Terra da Universidade de Colúmbia, também assessor do secretário da ONU, em questões de ecologia.

A mobilização mundial depois do maremoto asiático parece ter feito vacilar a fé dos donos do mundo, no dogma davosiano, inspirado em Darwin, da concorrência humana, como fator criador natural da riqueza e do equilíbrio social.

Será que a presença do presidente francês Chirac, missionário da taxa Tobin, geradora de 50 bilhões de dólares anuais, conseguirá convencer os empresários, banqueiros e estadistas da necessidade de se assegurar uma melhor distribuição das riquezas? Ou Davos, responsável pela ideologia da ganância desenfreada do atual neo-liberalismo, quer se fazer perdoar se convertendo numa escola dominical de boas intenções?



(29 de janeiro/2005)
CooJornal no 405


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch