25/06/2005
Número - 426

- Atentado em Israel
- Bush, o incendiário
- Bye bye Blair
- Convenção declara guerra ao cigarro
- Crianças não!
- De retorno à idade média
- Demissão política no caso de Maluf
- E agora, Europa?
- E agora, Sr. Bush?
- Em defesa das brasileirinhas
- Essas fotos nós já vimos
- Fahrenheit 9/11
- Filhos de brasileiros apátridas
- Filme de brasileiro conta...
- Forum de Davos
- Forum social suíço
- Industriais e banqueiros...
- Jornalista revela como é A Folha por dentro
- Knowhow contra aids
- Lepra: o fim da maldição
- Maria de Buenos Aires
- Ministro da justiça promete
- Morte de Sergio Vieira de Mello
- My sweet lord
- Novos membros da UE
- O cowboy Bush
- O espectro de Bin Laden
- O leão, o lobo e o cordeiro
- O silêncio cúmplice da Cruz Vermelha internacional
- Prisioneiros sem estatuto jurídico
- Ratazana Mickey
- Relator da ONU elogia Lula
- Ricúpero acusa
- Resistente iraquiano
- Roleta russa do Vaticano
- Será preciso um outro encontro com a liberdade?
- Suíça teme efeito Holanda
- Uma visão de Davos
- Vieira de Melo na direção da Onu?
- Vitória da extrema direita na Suíça
- 1º de abril

 
Rui Martins



Credibilidade de Lula corre sérios riscos

 

A credibilidade do presidente Lula corre sérios riscos, afirmou no fim de semana, em Friburgo, na Suíça, Francisco Whitaker, um dos organizadores e responsáveis pelo Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Falando em seu nome pessoal, ele criticou a decisão de Lula quanto aos transgênicos, numa questão que agora não tem volta, e manifestou sua apreensão quanto a um próximo erro de Lula - o de relançar as pesquisas nucleares em Angra 3.

Apesar de seus erros em termos de desmatamento, reforma agrária, transgênicos e pesquisas nucleares, Lula poderá se reeleger, pois tem muito carisma. Porém, poderá também se transformar numa enorme decepção, disse Whitaker, afirmando que cabe ao povo e organizações manifestarem seu descontentamento para que Lula possa utilizar esse mecanismo de pressão contra o FMI, por exemplo.

Francisco Whitaker veio a Friburgo, na Suíça, de conferências pronunciadas na Ásia, para participar do Fórum Social Suíço, um dos participantes do Fórum de Porto Alegre.

Segundo ele, o Fórum Social Mundial não tem como se posicionar com relação a Lula, pois não é uma organização e sim um espaço de discussão, do qual podem participar os críticos de Lula e os que ainda mantêm sua esperança.

Francisco Whitaker afirmou que o PT vive um momento importante, com a campanha para a presidência do Partido que opõe os partidários incondicionais de Lula aos petistas fiéis aos movimentos do passado.


Rui Martins - Chegou a hora do Fórum Social Mundial romper com Lula?

Francisco Whitaker - Não, o Fórum não rompe com ninguém. Ele é não uma entidade, não é uma organização, não é uma direção de um movimento que toma posições. O Fórum é um espaço de encontro, de intercâmbio, de busca de novas altenativas. Gente participante do Fórum poderá romper com Lula, uns sim, outros não, é problema de cada um.

E o problema de romper com Lula é outro problema. Não é um problema do Fórum. A do Fórum é criar condições para que se discuta inclusive a política do Lula e encontrar alternativas. Por exemplo, eu mesmo participei este ano de uma iniciativa que está sendo montada devagarinho, que de um lado critica a política do Lula e do outro procura ajudar, como é o problema da desigualdade no Brasil. O grande drama brasileiro é a desigualdade, é a distância entre ricos e pobres, a quantidade pequena de ricos riquíssimos, uma classe média meio arrumada e a enorme quantidade de pobres paupérrimos. Esse é o escândalo brasileiro. Por isso, criamos um movimento Ação Brasileira de Combate à Desigualdade que vai lançar programas de opinião pública, pesquisas, e vai montar um observatório da desigualdade e vai analisar os planos e projetos do governo para ver se ele aumenta ou diminui a desigualdade que é o grande critério que achamos que tem de ser introduzido nas políticas públicas. Isso interessa muito ao Lula. Isso é uma pressão para ele poder fazer mais do que está conseguindo fazer.

Rui Martins - Na metade do mandato de Lula, no qual as classes desfavorecidas punham muita esperança, há muita decepção. Qual seu balanço? Os eleitores do PT podem se sentir logrados?

Whitaker - Não, de jeito nenhum. Temos de ser realistas. Esperar que a tomada do poder político com um pedacinho do Executivo iria mudar as coisas no Brasil era uma ilusão. Eu mesmo me entusiasmei enormemente e fiquei emocionadíssimo quando fui a Brasília e fiquei lá no meio do povo vendo a posse do Lula, mas isso é um pedaço de um certo romantismo. Na verdade, se sabe que esse tipo de tomada do poder é só de um pedacinho do poder. Temos de trabalhar de outra forma e analisar o que está acontecendo. O Lula, no nível internacional, está tomando iniciativas extremamente úteis; no nível nacional não está conseguindo se desvencilhar das coisas em que se amarrou ou dos compromissos que o Brasil assumiu. E ao não conseguir se desvencilhar, a única solução para ele se desvencilhar é que a sociedade traga alternativas e formas para sair disso. Então ainda há um tempo para se trabalhar, a sociedade ainda vai pressionar. O Lula tem de chegar para o FMI e dizer "não dá para manter esse superávit fiscal, esse excedente para pagar a dívida porque a pressão de dentro do país é muito grande. Mas, para ele dizer isso é preciso que nós o pressionemos. Daí as marchas e outras pressões. O Lula tem um carisma muito grande, uma capacidade de comunicação muito forte. Ele continua com grande popularidade, mas todo mundo que votou nele gostaria que fosse mais rápido. Porém, se ele for rápido demais, ele cai. É a regra do jogo. Então, calma lá...

Rui Martins - Mas veja, muita calma às vezes é perigoso. Na questão do desmatamento, da reforma agrária e do desemprego praticamente nada se andou: o Brasil, no que refere à política externa, depende de um esquerdista, o Celso Amorim, mas dentro do Parlamento parece difícil, e a questão da credibilidade agora se coloca, agora que começou a martelação em cima de Lula, vinda da direita, esquerda e extrema-esquerda. Inclusive a credibilidade do Fórum Social Mundial se ele não atacar Lula...

Whitaker - Não, não se deve misturar essas coisas. O Fórum é um espaço de discussão de problemas, inclusive brasileiros com dimensão planetária. Não tem nada a ver em relação a Lula. Do Fórum participam os mais diversos movimentos, alguns deles muito críticos em relação a Lula, eles têm espaço para isso, espaço para se exprimir. Separemos as duas coisas.

Agora, em relação à credibilidade do Lula, realmente ele está correndo grandes riscos. Não há dúvida. Embora paradoxalmente possa até ganhar a eleição e ser reeleito. Porque é um mistério esse processo da credibilidade pessoal e da expectativa das pessoas. Na verdade, eu pessoalmente acho que na questão dos transgênicos, ele fez erros terríveis. Não deveria ter feito, são coisas sem volta. Tem um outro erro, que possivelmente será feito proximamente, que é a retomada das pesquisas nucleares de Angra 3 - é terrível fazer isso. Mas existe gente se movimentando. A própria Marina, do Meio Ambiente, está lutando para que as pessoas falem. Não sei quanto tempo ela vai agüentar tudo isso. Estão acontecendo movimentos para que o governo acorde. Mas o Lula tem uma margem de manobra muito limitada e com uma crise enorme no Congresso, provocada por uma condição equivocada na eleição da mesa. Todos esses problemas, que são problemas estruturais no Brasil e complicados, que ele está enfrentando.

De qualquer maneira, de repente isso pode se transformar numa enorme decepção, mas também pode se transformar numa continuidade. O PT está vivendo uma enorme crise - há dois tipos de partidos e duas visões de partido que estão se enfrentando nas eleições internas. O PT tem uma coisa interessante - o presidente do partido é por eleição direta. Na campanha para eleição do presidente do partido, os campos estão se dividindo muito claramente - os que querem ser correias de transmissão do governo e apoiá-lo a qualquer custo, e os que querem ser livres, autônomos e críticos em relação ao governo e reexercer o papel que o partido exerceu no início da mobilização popular. Tudo isso está acontecendo no Brasil. Este ano é muito decisivo nesse processo. Nem tudo terminou, nem tudo está salvo, estamos em plena luta.


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Rui Martins, correspondente da RN na Suíça, 06 de junho de 2005


(25 de junho/2005)
CooJornal no 426


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch