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Rui Martins
Credibilidade de Lula corre sérios riscos
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A credibilidade do presidente Lula corre sérios riscos, afirmou no fim de
semana, em Friburgo, na Suíça, Francisco Whitaker, um dos organizadores e
responsáveis pelo Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Falando em seu
nome pessoal, ele criticou a decisão de Lula quanto aos transgênicos, numa
questão que agora não tem volta, e manifestou sua apreensão quanto a um
próximo erro de Lula - o de relançar as pesquisas nucleares em Angra 3.
Apesar de seus erros em termos de desmatamento, reforma agrária,
transgênicos e pesquisas nucleares, Lula poderá se reeleger, pois tem
muito carisma. Porém, poderá também se transformar numa enorme decepção,
disse Whitaker, afirmando que cabe ao povo e organizações manifestarem seu
descontentamento para que Lula possa utilizar esse mecanismo de pressão
contra o FMI, por exemplo.
Francisco Whitaker veio a Friburgo, na Suíça, de conferências pronunciadas
na Ásia, para participar do Fórum Social Suíço, um dos participantes do
Fórum de Porto Alegre.
Segundo ele, o Fórum Social Mundial não tem como se posicionar com relação
a Lula, pois não é uma organização e sim um espaço de discussão, do qual
podem participar os críticos de Lula e os que ainda mantêm sua esperança.
Francisco Whitaker afirmou que o PT vive um momento importante, com a
campanha para a presidência do Partido que opõe os partidários
incondicionais de Lula aos petistas fiéis aos movimentos do passado.
Rui Martins - Chegou a hora do Fórum Social Mundial romper com Lula?
Francisco Whitaker - Não, o Fórum não rompe com ninguém. Ele é não uma
entidade, não é uma organização, não é uma direção de um movimento que
toma posições. O Fórum é um espaço de encontro, de intercâmbio, de busca
de novas altenativas. Gente participante do Fórum poderá romper com Lula,
uns sim, outros não, é problema de cada um.
E o problema de romper com Lula é outro problema. Não é um problema do
Fórum. A do Fórum é criar condições para que se discuta inclusive a
política do Lula e encontrar alternativas. Por exemplo, eu mesmo
participei este ano de uma iniciativa que está sendo montada devagarinho,
que de um lado critica a política do Lula e do outro procura ajudar, como
é o problema da desigualdade no Brasil. O grande drama brasileiro é a
desigualdade, é a distância entre ricos e pobres, a quantidade pequena de
ricos riquíssimos, uma classe média meio arrumada e a enorme quantidade de
pobres paupérrimos. Esse é o escândalo brasileiro. Por isso, criamos um
movimento Ação Brasileira de Combate à Desigualdade que vai lançar
programas de opinião pública, pesquisas, e vai montar um observatório da
desigualdade e vai analisar os planos e projetos do governo para ver se
ele aumenta ou diminui a desigualdade que é o grande critério que achamos
que tem de ser introduzido nas políticas públicas. Isso interessa muito ao
Lula. Isso é uma pressão para ele poder fazer mais do que está conseguindo
fazer.
Rui Martins -
Na metade do mandato de Lula, no qual as classes desfavorecidas punham
muita esperança, há muita decepção. Qual seu balanço? Os eleitores do PT
podem se sentir logrados?
Whitaker - Não, de jeito nenhum. Temos de ser realistas. Esperar que a
tomada do poder político com um pedacinho do Executivo iria mudar as
coisas no Brasil era uma ilusão. Eu mesmo me entusiasmei enormemente e
fiquei emocionadíssimo quando fui a Brasília e fiquei lá no meio do povo
vendo a posse do Lula, mas isso é um pedaço de um certo romantismo. Na
verdade, se sabe que esse tipo de tomada do poder é só de um pedacinho do
poder. Temos de trabalhar de outra forma e analisar o que está
acontecendo. O Lula, no nível internacional, está tomando iniciativas
extremamente úteis; no nível nacional não está conseguindo se desvencilhar
das coisas em que se amarrou ou dos compromissos que o Brasil assumiu. E
ao não conseguir se desvencilhar, a única solução para ele se desvencilhar
é que a sociedade traga alternativas e formas para sair disso. Então ainda
há um tempo para se trabalhar, a sociedade ainda vai pressionar. O Lula
tem de chegar para o FMI e dizer "não dá para manter esse superávit
fiscal, esse excedente para pagar a dívida porque a pressão de dentro do
país é muito grande. Mas, para ele dizer isso é preciso que nós o
pressionemos. Daí as marchas e outras pressões. O Lula tem um carisma
muito grande, uma capacidade de comunicação muito forte. Ele continua com
grande popularidade, mas todo mundo que votou nele gostaria que fosse mais
rápido. Porém, se ele for rápido demais, ele cai. É a regra do jogo.
Então, calma lá...
Rui Martins - Mas veja, muita calma às vezes é perigoso. Na questão do desmatamento, da
reforma agrária e do desemprego praticamente nada se andou: o Brasil, no
que refere à política externa, depende de um esquerdista, o Celso Amorim,
mas dentro do Parlamento parece difícil, e a questão da credibilidade
agora se coloca, agora que começou a martelação em cima de Lula, vinda da
direita, esquerda e extrema-esquerda. Inclusive a credibilidade do Fórum
Social Mundial se ele não atacar Lula...
Whitaker -
Não, não se deve misturar essas coisas. O Fórum é um espaço de discussão
de problemas, inclusive brasileiros com dimensão planetária. Não tem nada
a ver em relação a Lula. Do Fórum participam os mais diversos movimentos,
alguns deles muito críticos em relação a Lula, eles têm espaço para isso,
espaço para se exprimir. Separemos as duas coisas.
Agora, em relação à credibilidade do Lula, realmente ele está correndo
grandes riscos. Não há dúvida. Embora paradoxalmente possa até ganhar a
eleição e ser reeleito. Porque é um mistério esse processo da
credibilidade pessoal e da expectativa das pessoas. Na verdade, eu
pessoalmente acho que na questão dos transgênicos, ele fez erros
terríveis. Não deveria ter feito, são coisas sem volta. Tem um outro erro,
que possivelmente será feito proximamente, que é a retomada das pesquisas
nucleares de Angra 3 - é terrível fazer isso. Mas existe gente se
movimentando. A própria Marina, do Meio Ambiente, está lutando para que as
pessoas falem. Não sei quanto tempo ela vai agüentar tudo isso. Estão
acontecendo movimentos para que o governo acorde. Mas o Lula tem uma
margem de manobra muito limitada e com uma crise enorme no Congresso,
provocada por uma condição equivocada na eleição da mesa. Todos esses
problemas, que são problemas estruturais no Brasil e complicados, que ele
está enfrentando.
De qualquer maneira, de repente isso pode se transformar numa enorme
decepção, mas também pode se transformar numa continuidade. O PT está
vivendo uma enorme crise - há dois tipos de partidos e duas visões de
partido que estão se enfrentando nas eleições internas. O PT tem uma coisa
interessante - o presidente do partido é por eleição direta. Na campanha
para eleição do presidente do partido, os campos estão se dividindo muito
claramente - os que querem ser correias de transmissão do governo e
apoiá-lo a qualquer custo, e os que querem ser livres, autônomos e
críticos em relação ao governo e reexercer o papel que o partido exerceu
no início da mobilização popular. Tudo isso está acontecendo no Brasil.
Este ano é muito decisivo nesse processo. Nem tudo terminou, nem tudo está
salvo, estamos em plena luta.
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Rui Martins, correspondente da RN na Suíça, 06 de junho de 2005
(25 de junho/2005)
CooJornal
no 426