24/09/2005
Número - 443

 
Rui Martins



Justiça não é vingança

 

(Berna/Viena, BR Press) - Em fevereiro de 1989, a Editora Laffont colocara nas livrarias o livro Justiça não é Vingança. Era uma resposta de Simon Wiesenthal aos que consideravam sua busca incessante de nazistas ainda vivos como uma vingança. O mundo ainda se lembrava da maneira espetacular como Adolf Eichmann (responsável pelo transporte de judeus aos campos de extermínio) tinha sido localizado em Buenos Aires e levado para Israel, onde teve o processo do qual escapara fugindo para a Argentina. Fazia pouco tempo, os franceses tinham condenado Klaus Barbie e terminara a caça a Josef Mengele, o Anjo da Morte.

Em todos esses casos mais conhecidos e em outros 1100, houve a participação do caçador de nazistas Simon Wiesenthal, uma espécie de justiceiro depois de um dos mais negros e pérfidos momentos da história ocidental – o da aplicação da solução final ou tentativa de extermínio dos judeus pelos nazistas.

Ao terminar a leitura de Justiça Não é Vingança, telefonei para Jussara, a secretária da revista Manchete para propor uma entrevista com Simon Wiesenthal. Não me lembro se falei também com Osias Wurman, mas minha proposta rapidamente aprovada, marcou o início dos contatos para chegar até Wiesenthal e fixar o dia e a hora da entrevista.

Depois de ter fornecido algumas referências sobre a revista, veio o telefonema no qual recebi o endereço do Centro Simon Wiesenthal de Viena, e o horário para encontrar entrevistar e fotografar Simon Wiesenthal.

Só estivera na Áustria quase vinte anos antes, onde conhecera Viena, Salzburgo, Ausburgo e Klagenfurt. Para mim, a Áustria era o país de Mozart, da valsa, do strudel, dos homens de peninhas nos chapéus esverdeados e bermudas de couro, da família Trap de a Noviça Rebelde, mas também do Anchluss e do passado nazista.

Tomamos o trem noturno, eu e Hanna, minha companheira, que faria a bela foto de Wiesenthal publicada em página dupla naquela edição de maio de 1989. Tivemos de procurar no mapa de Viena, para saber onde ficava a rua Salztorgasse. Um apartamento de salas pequenas abrigava o centro Simon Wiesenthal, ao qual se chegava subindo escadas estreitas.

Cheio de energia

Naquela época com 80 anos, Simon era um homem pequeno, de paletó e gravata, quase calvo e bigode branco, cheio de energia, que nos contava sua incessante busca. Ele era a prova viva de que uma pequena idéia pode ser levada avante por uma só pessoa e que basta um homem e uma idéia para se mudar o mundo.

Nosso encontro durou cerca de hora e meia, mas foi o suficiente para ter um lugar privilegiado na minha memória. Ao ler a notícia de sua morte, fui procurar no meu arquivo (felizmente ainda de papel batido à máquina) minha reportagem e encontro com Simon Wiesenthal. Ainda ontem, terminara de ler uma autobiografia de Isaac Bashevis Singer, contando seus últimos dias em Varsóvia, onde os nazistas entrariam e aniquilariam a maior comunidade judaica da diáspora.

Repasso um pequeno trecho de minha reportagem com Simon Wiesenthal:

Foi no dia 25 de maio de 1945, ainda no campo de Mauthausen recém-libertado pelos norte-americanos, que um esquelético sobrevivente exigiu ser levado ao comandante para apresentar uma queixa. Da barraca ao posto de comando, foi ajudado por outros dois ex-prisioneiros que o apoiavam pelos ombros e tentavam manter levantada sua cabeça.

A seguir, seu corpo foi ajustado numa cadeira e os braços estendidos sobre a mesa do oficial mantinham um precário equilíbrio. Simon Wiesenthal tinha sido agredido por um polonês e não podia admitir que o anti-semitismo continuasse mesmo depois da derrota dos nazistas.

O comandante mandou chamar o agressor e exigiu que apresentasse desculpas. Diante do agressor de mão estendida, Wiesenthal teve uma atitude que nortearia sua existência – “aceito suas desculpas mas não posso lhe dar a mão”.

Combate difícil e solitário

A partir daí, Wiesenthal iniciaria um combate difícil e muitas vezes solitário – o de aplicar a justiça nos criminosos de guerra nazistas da Segunda Guerra Mundial.

O perdão não lhe competia – só as vítimas e suas famílias poderiam concedê-lo. Também não lhe interessava a vingança e, por isso, sempre desestimulou a ação de comandos de jovens ou antigos resistentes desejosos de punir, por eles próprios, os crimes cometidos durante a guerra.

Direitos humanos

Só o respeito à justiça evitaria a repetição dos crimes nazistas – esse princípio de não ceder à lei de Talião trouxe-lhe decepções – muitos nazistas foram absolvidos principalmente pela justiça austríaca. Mas os processos instaurados, como o de Eichmann, mostraram ao mundo os horrores dos crimes do nazismo e foram os germes de todos os movimentos atuais de defesa dos direitos humanos.

Aos 80 anos (em 1989), Simon Wiesenthal continua seu combate de 44 anos, no seu Centro de documentação instalado num apartamento de três peças da rua Salztorgasse, em Viena. Sem ele, estariam impunes até hoje os principais assassinos dos 6 milhões de judeus exterminados pela Alemanha de Hitler.

Sem computador

Sem dispor de computadores, servindo-se apenas de telefone, do correio, recortes de imprensa e de uma rede de informantes, Simon Wiesenthal tornou-se o justiceiro, cuja sombra faz tremer os criminosos nazistas e os obriga a viver escondidos ou com falsa identidade.

Metódico, paciente, determinado e com uma saúde de ferro, Wiesenthal irá sobreviver, sem dúvida, ao último criminoso de guerra, atento para que não prescrevam sua resposnabilidades diante da justiça. Depois de Stangl, Wagner, Eichmann e da controvertida morte de Mengele, Wiesenthal espera seja feita justiça no caso do comandante do gueto de Przemysl, na Polônia, Josef Schwammberger, responsável por milhares de mortes.

Em 1990, o ex-oficial da SS, foi extraditado da Argentina, onde vivia, para a Alemanha, onde foi preso e julgado.


(24 de setembro/2005)
CooJornal no 443


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch