|
Rui Martins
Justiça não é vingança
|
 |
(Berna/Viena, BR Press) - Em fevereiro de 1989, a Editora Laffont colocara
nas livrarias o livro Justiça não é Vingança. Era uma resposta de Simon
Wiesenthal aos que consideravam sua busca incessante de nazistas ainda
vivos como uma vingança. O mundo ainda se lembrava da maneira espetacular
como Adolf Eichmann (responsável pelo transporte de judeus aos campos de
extermínio) tinha sido localizado em Buenos Aires e levado para Israel,
onde teve o processo do qual escapara fugindo para a Argentina. Fazia
pouco tempo, os franceses tinham condenado Klaus Barbie e terminara a caça
a Josef Mengele, o Anjo da Morte.
Em todos esses casos mais conhecidos e em outros 1100, houve a
participação do caçador de nazistas Simon Wiesenthal, uma espécie de
justiceiro depois de um dos mais negros e pérfidos momentos da história
ocidental – o da aplicação da solução final ou tentativa de extermínio dos
judeus pelos nazistas.
Ao terminar a leitura de Justiça Não é Vingança, telefonei para Jussara, a
secretária da revista Manchete para propor uma entrevista com Simon
Wiesenthal. Não me lembro se falei também com Osias Wurman, mas minha
proposta rapidamente aprovada, marcou o início dos contatos para chegar
até Wiesenthal e fixar o dia e a hora da entrevista.
Depois de ter fornecido algumas referências sobre a revista, veio o
telefonema no qual recebi o endereço do Centro Simon Wiesenthal de Viena,
e o horário para encontrar entrevistar e fotografar Simon Wiesenthal.
Só estivera na Áustria quase vinte anos antes, onde conhecera Viena,
Salzburgo, Ausburgo e Klagenfurt. Para mim, a Áustria era o país de
Mozart, da valsa, do strudel, dos homens de peninhas nos chapéus
esverdeados e bermudas de couro, da família Trap de a Noviça Rebelde, mas
também do Anchluss e do passado nazista.
Tomamos o trem noturno, eu e Hanna, minha companheira, que faria a bela
foto de Wiesenthal publicada em página dupla naquela edição de maio de
1989. Tivemos de procurar no mapa de Viena, para saber onde ficava a rua
Salztorgasse. Um apartamento de salas pequenas abrigava o centro Simon
Wiesenthal, ao qual se chegava subindo escadas estreitas.
Cheio de energia
Naquela época com 80 anos, Simon era um homem pequeno, de paletó e
gravata, quase calvo e bigode branco, cheio de energia, que nos contava
sua incessante busca. Ele era a prova viva de que uma pequena idéia pode
ser levada avante por uma só pessoa e que basta um homem e uma idéia para
se mudar o mundo.
Nosso encontro durou cerca de hora e meia, mas foi o suficiente para ter
um lugar privilegiado na minha memória. Ao ler a notícia de sua morte, fui
procurar no meu arquivo (felizmente ainda de papel batido à máquina) minha
reportagem e encontro com Simon Wiesenthal. Ainda ontem, terminara de ler
uma autobiografia de Isaac Bashevis Singer, contando seus últimos dias em
Varsóvia, onde os nazistas entrariam e aniquilariam a maior comunidade
judaica da diáspora.
Repasso um pequeno trecho de minha reportagem com Simon Wiesenthal:
Foi no dia 25 de maio de 1945, ainda no campo de Mauthausen
recém-libertado pelos norte-americanos, que um esquelético sobrevivente
exigiu ser levado ao comandante para apresentar uma queixa. Da barraca ao
posto de comando, foi ajudado por outros dois ex-prisioneiros que o
apoiavam pelos ombros e tentavam manter levantada sua cabeça.
A seguir, seu corpo foi ajustado numa cadeira e os braços estendidos sobre
a mesa do oficial mantinham um precário equilíbrio. Simon Wiesenthal tinha
sido agredido por um polonês e não podia admitir que o anti-semitismo
continuasse mesmo depois da derrota dos nazistas.
O comandante mandou chamar o agressor e exigiu que apresentasse desculpas.
Diante do agressor de mão estendida, Wiesenthal teve uma atitude que
nortearia sua existência – “aceito suas desculpas mas não posso lhe dar a
mão”.
Combate difícil e solitário
A partir daí, Wiesenthal iniciaria um combate difícil e muitas vezes
solitário – o de aplicar a justiça nos criminosos de guerra nazistas da
Segunda Guerra Mundial.
O perdão não lhe competia – só as vítimas e suas famílias poderiam
concedê-lo. Também não lhe interessava a vingança e, por isso, sempre
desestimulou a ação de comandos de jovens ou antigos resistentes desejosos
de punir, por eles próprios, os crimes cometidos durante a guerra.
Direitos humanos
Só o respeito à justiça evitaria a repetição dos crimes nazistas – esse
princípio de não ceder à lei de Talião trouxe-lhe decepções – muitos
nazistas foram absolvidos principalmente pela justiça austríaca. Mas os
processos instaurados, como o de Eichmann, mostraram ao mundo os horrores
dos crimes do nazismo e foram os germes de todos os movimentos atuais de
defesa dos direitos humanos.
Aos 80 anos (em 1989), Simon Wiesenthal continua seu combate de 44 anos,
no seu Centro de documentação instalado num apartamento de três peças da
rua Salztorgasse, em Viena. Sem ele, estariam impunes até hoje os
principais assassinos dos 6 milhões de judeus exterminados pela Alemanha
de Hitler.
Sem computador
Sem dispor de computadores, servindo-se apenas de telefone, do correio,
recortes de imprensa e de uma rede de informantes, Simon Wiesenthal
tornou-se o justiceiro, cuja sombra faz tremer os criminosos nazistas e os
obriga a viver escondidos ou com falsa identidade.
Metódico, paciente, determinado e com uma saúde de ferro, Wiesenthal irá
sobreviver, sem dúvida, ao último criminoso de guerra, atento para que não
prescrevam sua resposnabilidades diante da justiça. Depois de Stangl,
Wagner, Eichmann e da controvertida morte de Mengele, Wiesenthal espera
seja feita justiça no caso do comandante do gueto de Przemysl, na Polônia,
Josef Schwammberger, responsável por milhares de mortes.
Em 1990, o ex-oficial da SS, foi extraditado da Argentina, onde vivia,
para a Alemanha, onde foi preso e julgado.
(24 de setembro/2005)
CooJornal
no 443