15/10/2005
Número - 446

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



CIENTISTA RELACIONA MÁ NUTRIÇÃO COM AIDS
 

A pobreza e miséria com a conseqüente má nutrição podem ser também causas determinantes de deficiências no sistema imunitário. Essa interpretação social da quebra do sistema imunitário, da Dra. Catherine Henkins, diretora científica do Departamento de Informação Estratégica e Mobilização Social da UNAIDS, pode explicar porque a África é hoje o continente com a grande maioria de aidéticos no mundo.

Além de fazer uma nova leitura da Aids na África, Catherine Henkins justificou as recentes severas críticas do cientista brasileiro Paulo Teixeira às afirmações do Dr. Gallo, cientista americano, de que a generalização da triterapia na África iria aumentar a resistência do vírus, por não saberem os africanos tomar seus remédios.
A cientista canadense participa do Fórum do Programa Africano de Vacina contra a Aids, em Iaunde, capital dos Camarões, na África, onde 240 cientistas, na maioria africanos, fazem uma avaliação dos progressos obtidos na busca de uma vacina contra a Aids, depois de 80 testes clínicos em voluntários de diversos países.

Catherien Henkins explicou também como certas prostitutas africanas e homossexuais americanos não se infectam com a Aids. No começo dessa pandemia, os cientistas se interessaram por essas pessoas, mas logo verificaram que elas não possuíam anticorpos, pois o vírus conseguia entrar nos seus corpos mas não em suas células por um problema genético nos receptores dessas células. Não se tratava, explica Henkins, de uma resposta ou defesa imunitária. O vírus circula pelo sangue dessas pessoas expostas, mas não consegue entrar nas células e infectá-las.  Até hoje, diz ela, nenhuma pessoas infectada conseguiu se livrar do vírus.

Quem vive num continente rico e desenvolvido como a Europa com boa alimentação não tem sistema imunitário mais resistente? Não há uma relação entre pobreza, miséria e má nutrição com pessoas mais predispostas à infecção pela Aids?

Podemos ver isso de duas maneiras. Muitas pessoas pobres e com fome trocam sexo por alimentos, é uma relação de necessidade com o sexo, que as torna mais vulneráveis ao VIH, principalmente quando ganham o dobro ou o triplo para fazerem sexo sem preservativo.O outro aspecto, o da pobreza e da miséria vem merecendo estudos para saber se existe uma correlação com quebra do sistema imunitário e infecção pela Aids. É certo que a má nutrição estraga o sistema imunitário e é muito provável a existência de uma vulnerabilidade provocada diretamente e biologicamente pela pobreza.

Houve laboratórios farmacêuticos que testaram remédios ou fizeram testes clínicos com prostitutas, aqui nos Camarões?

Existem seis ou sete estudos em todo o mundo com um dos remédios usados na triterapia, bastante prometedor como proteção contra a exposição ao vírus.
Tomado todos os dias, esse remédio protegeria o parceiro negativo no contato com o um parceiro positivo, com problemas no uso do preservativo. Esse remédio poderia evitar a instalação do vírus nas células. Os testes implicam no uso de placebos para a metade dos pesquisados, para saber se há uma diferença no índice de incidência de infecções. Dois estudos, nos Camarões e no Cambodja, com prostitutas foram suspensos. Esses estudos eram feitos em pessoas de alto risco e não com pessoas normais, como nos outros testes clínicos, talvez por ser um remédio já existente e licenciado. Mas foram saltadas algumas etapas na experiência e o uso de pessoas marginalizadas acabou por tornar os estudos suspeitos.

Como viu a atitude de Paulo Teixeira, ex-diretor de UNAIDs, criticando a argumentação do Dr. Gallo, de que a triterapia na África, onde as pessoas não tomam corretamente os remédios, iria aumentar a resistência do vírus?

Antes de mais nada, Camarões tem um sistema universal de tratamento com triterapia, no qual quem não pode não precisa pagar e os outros pagam sendo seus salários. Quanto às declarações sobre resistência e que os africanos não sabem tomar os remédios, acho terem sido maldosas. Fazem parte do mesmo tipo de comentários de que os africanos não têm idéia do tempo, porque não sabem ler as horas nos relógios.

É bom saber que o nível de resistência é muito elevado nos EUA e na Europa. Isso porque as pessoas começaram com a monoterapia, duoterapia e só depois triterapia, quando os africanos já começam diretamente na triterapia. Existem assim uma boa possibilidade de se evitar a resistência e os africanos mostram-se extremamente felizes por terem acesso aos remédios. Para tomar os remédios existem programas de parcerias, para se ajudar na administração dos remédios.

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YAUNDE DISCUTE VACINA CONTRA AIDS

Rui Martins, de Iaunde, Camarões - 18/10/2005

"Se for encontrada uma vacina contra Aids (Sida) válida para os infectados nos Camarões, o mundo inteiro está salvo", escreve o jornal do Fórum do Programa Africano de Vacina contra Aids (Sida), que começou hoje aqui em Iaunde e irá até a quarta-feira.

Isso porque, só aqui nos Camarões existem doze subtipos do vírus HIV.

Na entrevista com a imprensa, a responsável da OMS pelo programa de vacina antiAids, Marie-Paule Kieny, explicou que, os dois primeiros tipos de vírus encontrados em 82, na África, logo se subdividiram em subtipos, que, a seguir, se intercomunicaram, dando origem a subtipos diversos, dificultando os trabalhos de pesquisa para uma vacina.

Entretanto, diz ela, existe um clima de otimismo entre os pesquisadores, porque apesar das dificuldades encontradas, uma série de perguntas já foram respondidas nos 80 testes clínicos de primeira, segunda e terceira fase. O caminho está, portanto, aberto para novas possibilidades de experiências. Para os jornalistas que pediam um tempo ainda necessário para encontrar a vacina, Marie-Paule Kieny lembrou que ha. vinte anos se busca uma vacina contra a malária, mas que se acaba de fabricar a primeira vacina contra um certo tipo de câncer do útero, mostrando que sempre se chega a uma solução;

Por sua vez, Catherine Hankins, chefe cientifica de ONU-Sida (UNAIDS), ressaltou a importância da unificação dos esforços dos africanos na busca de uma vacina, os chamados três Uns - Uma só estratégia para cada país, no combate ao vírus, uma só coordenação nacional e um só monitoramento para avaliação dos resultados e progressos obtidos.

A representante da OMS nos Camarões, Dra. Mambu-Ma-Disu, prometeu para 4a.feira, um quadro geral de onde estão os trabalhos em busca de uma vacina e garantiu que a OMS acompanha em cada país africano os testes clínicos para que se façam no respeito aos princípios éticos. Uma coisa já se averiguou que os voluntários não se tornam mais sensíveis ao vírus como alguns poderiam imaginar.

O ministro da Saúde dos Camarões ressaltou também as conseqüências econômicas da doença no continente africano e que os países africanos, sem condições para um atendimento geral com o chamado coquetel anti Aids, apostam nas pesquisas de uma vacina.

O Fórum prossegue hoje com discussões sobre os testes clínicos, dos quais passara a participar a Tanzânia. Serão discutidas questões relacionadas com a regulamentação da vacina, quando for encontrada, e as questões éticas e de acesso à vacina no futuro.



(15 de outubro/2005)
CooJornal no 446


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch