29/10/2005
Número - 448

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 
Rui Martins



PELO MENOS MAIS DEZ ANOS
SEM VACINA CONTRA A AIDS

 

Os cientistas se dizem otimistas, mas pelo ver, trata-se de um otimismo realista e de pés no chão, pois afirmam não esperar nenhuma vacina contra a AIDS nos próximos dez anos. Uma conclusão capaz de dar arrepios, pois há três milhões de infectados pelo vírus da AIDS por ano, os atuais 28 milhões chegarão perto dos 60 milhões em dez anos.

Entretanto, os 240 cientistas reunidos durante três dias, na simbólica cidade de Iaunde com seus 12 subtipos de vírus da AIDS, não puderam oferecer nenhum esperança maior, ao término do Terceiro Fórum do Programa Africano de Vacina para a AIDS(AAVP). Isso, vistas as dificuldades de pesquisas de vacinas com os mutantes vírus africanos, que, nestes vinte anos, se cruzaram entre si e criaram novos subtipos.

Talvez os cientistas possam se dizer otimistas por verem agora oficializado o AAVP, com o apoio da União Africana que, por sua vez, endossa a ainda virtual, no dizer do ausente Pascoal Mocumbi, Global Vaccine Enterprise. Depois da Declaração de Nairobi, onde surgiu o programa africano de pesquisa de vacina contra a AIDS, é agora a vez da Declaração de Iaunde, pela qual se quer destacar que os pesquisadores africanos passam a ter participação ativa nas pesquisas e que a África não deseja mais ser o palco passivo de experiências e testes clínicos com produtos feitos em outros continentes.

Para impedir um despovoamento gradativo da África, resta – e a Declaração de Iaunde acentua – o recurso à prevenção, sem se descurar do tratamento triterápico dos infectados com o vírus. Enquanto isso, mais um país, a Tanzânia, irá reforçar o grupo de países com testes clínicos em voluntários. Não passou despercebido ao correspondente local da AFP, a presença só de países anglófonos nos testes clínicos, a Botsuana, Quênia, Ruanda, África do Sul e Uganda. E o Daily News do Fórum, redigido por dois jornalistas locais, lamentou a ausência no Fórum dos países lusófonos. Desequilíbrios que a OMS e ONU-AIDS deverão evitar, é de se esperar, nos próximos fóruns.

De passagem por Iaunde, a conselheira científica da ONU-AIDS Catherine Hankins destacou um aspecto social, pouco acentuado nos debates sobre a AIDS– o de que o sistema imunitário dos africanos está enfraquecido e se tornou mais vulnerável em comparação com o dos europeus e americanos em decorrência da miséria, pobreza e má nutrição.

Ela também refutou a argumentação de alguns cientistas de que generalizar o tratamento triterápico na África iria aumentar a resistência dos vírus, alegando uma dificuldade dos africanos em saberem tomar seus remédios. “Maldosa argumentação – disse a canadense Catherine Hankins – do mesmo tipo daquela de que os africanos não têm noção do tempo, por não saberem ver as horas no relógio”. O cientista brasileiro Paulo Teixeira, ex-diretor da ONU-AIDS tinha feito críticas semelhantes.




(29 de outubro/2005)
CooJornal no 448


Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch