
26/11/2005
Número - 452
ARQUIVO
RUI MARTINS
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Rui Martins
Rui Martins, entrevistado
pela jornalista gaúcha Irene Zwetsch
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A história do advogado e quase pastor que decidiu ser jornalista
Nascido em Torre de Pedra, próximo a Tatuí, em São
Paulo, Rui recebeu esse nome em homenagem a Rui Barbosa
e, coincidência ou não, acabou tornando-se também um
«homem das letras». Por pouco não se tornou «pastor».
Criado dentro da Igreja Presbiteriana, participava ativamente
na comunidade e foi um dos líderes da mocidade na
época. Com a ditadura, Rui desligou-se por completo da
Igreja Presbiteriana. Ele compartilhava das idéias marxistas,
enquanto a igreja uniu-se aos militares e expulsou os seminaristas
de esquerda.
Rui decidiu estudar Direito na USP e, enquanto fazia
faculdade à noite, trabalhava de dia no Citibank. A seguir, foi
assistente de direção do SESC, Serviço Social do Comércio.
«Tive três chefes que eram simpatizantes da esquerda e aprendi
muito na convivência e bate-papo com eles», diz o escritor.
Mas o que ele queria mesmo era trabalhar num jornal.
Por meio de um amigo, conseguiu fazer um mês de estágio
no jornal Estado de São Paulo. Terminado o período, prometeram
lhe chamar. Isso não aconteceu. Teimoso, Rui foi até o
jornal levar o convite para sua formatura e fez mais uma tentativa.
Deu certo, recebeu uma oferta. Sem pensar duas
vezes, Rui pediu licença no SESC e nunca mais voltou. «Fui
para o jornal ganhando 1/3 do meu salário, mas era isso que
eu queria fazer», lembra.
Rui estava há dois anos no jornal quando publicou o livro
«A rebelião romântica da Jovem Guarda» (Fulgor, 1966).
Publicado em plena ditadura, o livro defendia a tese de que
Roberto Carlos surgiu para preencher um vazio que havia no
país. Músicas como «Quero que vá tudo pro inferno», pregavam
uma forma de fugir do real. O jeito de ser da Jovem
Guarda contaminou o país e os meios de comunicação ajudaram
a criar o fenômeno musical. Essa forma de expressar
as frustrações, cassações políticas e incertezas passou a ser
um fenômeno sociológico. A análise de Rui sobre o tema foi
publicada em uma página no Estadão e o editor da Fulgor
(que era ligada ao PC) propôs que ele publicasse um livro a
respeito. «Em um mês o livro estava pronto», disse Rui, que
marcou assim sua estréia como escritor.
Sua atuação no jornal sempre teve uma pitada de contestação
à realidade. Como jornalista que cobria a área estudantil,
abrigou em sua casa o líder da União Nacional dos
Estudantes, José Luis Guedes e sua família, que estavam
sendo perseguidos. Mais tarde foi demitido do jornal por ter
comemorado a reação dos vietcongs aos Estados Unidos na
Guerra do Vietnam. Assumiu a chefia de redação paulistana
do jornal Última Hora do Rio. Perdeu novamente o emprego,
em dezembro de 68, ao participar de uma suposta greve de
jornalistas. Rui lembra do caso com certo humor: «O Reali
Junior, na época no Jornal da Tarde, veio à minha redação
pedir apoio para uma greve de jornalistas em São Paulo, que
na verdade não acontecia, mas eu acreditei e escrevi para
a sede: a imprensa de São Paulo está em greve e nós como
correspondentes em São Paulo também estamos». A resposta
veio rápida e curta: «Está demitido!»
Numa época em que «ser do contra» dava punição,
alguns amigos se preocuparam com a segurança de Rui,
temendo que ele fosse preso. Foi quando recebeu uma proposta
irrecusável da Embaixada da França: uma bolsa de
estudos para Paris para sair do Brasil. Arrumou tudo, saiu do
Brasil, deixou a mulher, e se exilou na França. «Saí uma
semana antes do seqüestro do embaixador americano, que
levou à prisão todo mundo», conta.
Na França, que considera sua segunda pátria, fez seu
Mestrado em Jornalismo no Institute Français de Presse e
dois anos de doutorado com especialidade em Ciência da
Comunicação. «Escrevi algum tempo para o Pasquim e,
durante uma época cheguei a ter três bolsas ao mesmo
tempo para poder sobreviver», relata. Nas horas vagas, dava
aulas de português.
Veio para Genebra, em 1970, pegar uma carta de apresentação
de Paulo Freire, que lhe garantiu uma uma bolsa
de estudos da CIMADE, em Paris. Ia ser professor de jornalismo
em Constantine, na Argélia, mas o contrato furou na
última hora. Inscreveu-se para um posto na UNESCO (órgão
das Nações Unidas responsável pela área da Educação,
Ciência e Cultura), por indicação de Eber Ferrer, mas chegou
em segundo lugar e não entrou. Foi uma época difícil em
Paris, onde criara nova família e onde nasceram suas duas
filhas mais velhas. Era uma vida de restrições e pouco dinheiro.
Por sorte, começou a escrever para a revista
Manchete.
Em 1975, em plena administração Geisel, voltou para
o Brasil, pois sua esposa tinha muitas saudades. O retorno
durou somente nove meses. Como sua esposa tinha sido
tesoureira da União Estadual dos Estudantes, um dia os
militares do DOI-CODI bateram à sua porta às cinco horas
da manhã e a levaram para ser interrogada. Alguns dias de
prisão com tortura, acabaram com a perspectiva de uma
vida normal em São Paulo e exigiram uma nova saída discreta
para começar tudo de novo em Paris. Um amigo lhe
conseguiu um emprego pela Abril e, a seguir, Rui trabalhou
como correspondente para a Rádio Guaíba, de Porto
Alegre.
Em 1980, com um contrato na Rádio Suíça
Internacional, Rui veio morar em Berna, aqui na Suíça. Nessa
época conheceu o deputado e escritor Jean Ziegler. «Premiado
ou azarão», como ele mesmo diz, ao chegar perto dos
cinco anos de trabalho, soube que seu contrato não seria
renovado e terminaria no meio do ano letivo das crianças.
Rui foi o primeiro estrangeiro a não ter mais contrato definitivo
com a Rádio Suíça, que, em 1985, mudou as regras
para os estrangeiros.
Depois de um ano e meio na Holanda, voltou à Suíça
para ser correspondente do que seria a CBN e do Estadão.
Seus boletins de rádio tinham, desde a época da Guaíba, um
estilo diferente, começando sempre com uma brincadeira,
uma frase de efeito e transmitindo muita emoção. O jornalista
procurou sempre manter uma interatividade com o ouvinte.
Do tempo na Rádio Suíça Internacional ficou um
ressentimento, que custou a desaparecer. «A Suíça me
rejeitou e eu rejeitei a Suíça. Tudo o que eu podia, escrevia
contra a Suíça. Mudei a imagem de cartão postal que a
Suíça tinha no Brasil e contei um lado que não se conhecia
», revela o escritor. Rui só venceu esse problema
quando abraçou uma nova bandeira: a luta pelas classes
bilíngües no cantão de Berna. Tudo começou quando se
tornou presidente da Comissão de Pais na escola de suas
duas filhas do terceiro casamento. Quando veio a decisão
da cidade de Berna de cortar a subvenção para a Escola
Cantonal de Língua Francesa (ECLF) ele agitou a imprensa
e «dizem que foi por isso que as autoridades bernesas
voltaram atrás».
No processo de luta pela escola Rui conheceu os representantes
do parlamento da cidade, viu que tinha apoio e
que «era possível o diálogo com essa gente que eu antes
não queria nem ver». Por isso mesmo ele não cansa de repetir
que «a experiência de dirigir uma comissão de pais, lutar
para serem ouvidos e o atual projeto de classes colegiais
bilíngües com a criação do grupo Francophones de Berne foi
a minha integração». «Passei tanto tempo não querendo me
integrar que quero salvar os outros disso, no caso os filhos
de imigrantes como eu. Precisamos fazer a nossa parte,
esperamos que as autoridades correspondam ao nosso
desejo de integração», afirma o jornalista. Infelizmente o
momento atual não parece muito promissor: «agora vejo
que a situação se degringola e o país adota leis racistas contra
os estrangeiros».
Essa decepção acaba transparecendo no livro sobre
Maluf. «Fui duro nos ataques a essa Suíça. Estou desenterrando
de uma outra forma a revolta antiga», conclui.
Mesmo assim, continua ativo na defesa da bandeira
das classes bilíngües em Berna e algumas vitórias já estão a
caminho. É quase certo que a primeira classe colegial
bilingue francês-alemão comece a funcionar a partir de
agosto de 2007. «É preciso sempre ousar para transformar
uma idéia em realidade», festeja.
Rui acredita que se a imigração nos trouxe até aqui,
precisamos nos integrar, para participar mais ativamente da
vida no novo país e transmitir as nossas idéias de sociedade.
Mas essa integração deve ser consciente «para que a Suíça,
graças aos estrangeiros, possa descobrir o caminho da abertura
ao mundo». Pensando no exemplo do futebol, Rui lembra
que a grande vitória da França na Copa do Mundo foi a
vitória do antiracismo. Para o jornalista, «a Suíça só poderá
ter ambições nessa área quando tiver uma seleção colorida».
Outra luta é para que o Brasil reconheça os filhos de
pai e/ou mãe brasileiros nascidos no Exterior como
brasileiros natos. Seu último artigo a respeito (ver página
16) está sendo republicado nos EUA e foi lembrado nas discussões
de Boston sobre imigração brasileira. Seu objetivo é
criar um ponto central, um site, que reúna imigrantes
brasileiros da Europa, Ásia e EUA para forçar o Brasil a rever
sua política com relação à diáspora basileira. (I.Z.)
(revista mensal da comunidade brasileira na Suíça)
(26 de novembro/2005)
CooJornal
no 452
Rui Martins é jornalista,
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch
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