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Rui Martins
SEM VERGONHA DE
SER EMIGRANTE
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No começo da campanha Brasileirinhos Apátridas senti haver um tabu a ser
derrubado, principalmente nos EUA - falar em filhos de emigrantes
brasileiros pegava mal, o pessoal queria uma outra fórmula mais simpática
- filhos de brasileiros nascidos no Exterior.
Ora, sem os brasileiros do Exterior assumirem sua condição de emigrantes
seria difícil se pleitear grandes coisas. Seus filhos teriam nascido numa
viagem de férias? Seriam prematuros vindos numa escala de avião?
Existem emigrantes de diversas classes e mesmo os clandestinos, mas todos
são emigrantes, pois deixaram o Brasil e se fixaram num outro país com
intenção de ficar por algum tempo, embora a maioria vá acabar ficando para
sempre. A conscientização da condição de emigrante é básica para se reunir
e formar comunidades e se fazer reivindicações.
Acho que o tabu foi quebrado. Hoje já se pode dizer, sem medo de ofender,
que o movimento Brasileirinhos Apátridas, em favor dos filhos da emigração
brasileira (nos EUA, nos países europeus ou no Japão) foi o primeiro
movimento aglutinador dos emigrantes brasileiros que também organizou as
primeiras manifestações internacionais da emigração brasileira diante de
Consulados, em diversas partes do mundo.
A Internet foi um extraordinário instrumento de reunião, pois facilitou o
encontro entre emigrantes de diferentes países e permitiu se sentirem
próximos, mesmo juntos, na defesa dos mesmos objetivos.
A emigração brasileira é ainda um fenômeno social recente, estamos longe
da experiência dos portugueses, acostumados a emigrar mesmo antes da
descoberta do Brasil. Isso porém, não escusa o governo e o Itamarati de
entrar num curso intensivo de aprendizado em matéria de emigração. Com a
grande vantagem de dispor, nesse aprendizado, de comunidades brasileiras
ativas, prontas a mostrarem suas necessidades mais prementes, mesmo porque
até agora praticamente nada se fez em favor dos emigrantes.
A grande prova foi o erro cometido na revisão constitucional de 94,
retirando-se a nacionalidade dos filhos dos emigrantes e os mais de 13
anos para se corrigir esse erro. Embora eu tivesse sido crítico severo
quanto aos Consulados, durante esse período, pois sonegavam uma informação
correta aos pais emigrantes sobre a nacionalidade de seus filhos, sou
condescendente com os legisladores. Na verdade, o Brasil tem numerosos
problemas internos para resolver e é compreensível o desinteresse com que
foi tratada a situação dos brasileirinhos, até surgirem os deputados
Carlito Merss, Rita Camata e Leo Alcântara.
Na verdade, se a comunidade brasileira emigrante tivesse esperado um gesto
paternalista dos legisladores ou do governo, nada teria sido solucionado.
Os emigrantes são 2,5% da população, não têm peso político e estão
espalhados pelo planeta.
Foi necessário um exercício de cidadania em termos coletivos e com
dimensão internacional. É essa a grande importância - além de ter obtido a
restituição da nacionalidade brasileira aos filhos da emigração - do
movimento Brasileirinhos Apátridas: criou uma consciência internacional
entre os emigrantes brasileiros que permitiu agirem reivindicando unidos
em favor de seus filhos.
O objetivo era bastante consensual, mas isso em nada minimiza a luta e a
vitória dos emigrantes. Foi agora aberto o caminho para novas lutas, pois
os emigrantes perceberam terem força ao agirem unidos.
Quais poderão ser as novas campanhas? Por que não em favor da
aposentadoria dos emigrantes, para que seja contado o tempo trabalhado no
Exterior para quem retorna ao Brasil e no Brasil para quem fica no
Exterior?
Mas para isso, o consenso não será tão fácil como para os brasileirinhos.
Os emigrantes terão de ser representados em Brasília por emigrantes e o
Itamarati terá de nomear imigrantes para formar um verdadeiro Conselho de
Comunidades, porque diplomatas estão longe da realidade por eles vividas.
O senador Cristovam Buarque propôs a Emenda 05.05, criando deputados
federais. Ora, o 28º Estado da Federação, o dos Emigrantes, composto de 4
milhões de pessoas, contribui com 6 a 8 bilhões de dólares para o Brasil,
e pode exigir o direito de ter pelo menos um senador.
Para ter peso político, o Estado dos Emigrantes precisa votar e para votar
precisa do voto por correspondência, pois os Consulados estão longe e
dispersos.
Essas as exigências mínimas que fazemos agora ao ministro Celso Amorim.
Não se esquecendo que, se os emigrantes votarem não só para presidente mas
para deputados e senador, terão peso político. Serão milhões de votos,
capazes de decidir mesmo uma eleição presidencial.
Embora a grande imprensa não tenha percebido a importância dos emigrantes
e prefira se fazer de cansada, esta hora é histórica - os emigrantes
unidos conseguiram mudar a Constituição em Brasília, assumiram sua
condição de emigrantes e vão começar a reivindicar como cidadãos
brasileiros. Está nascendo o Estado dos Emigrantes, futuro celeiro
multicultural para o Brasil.
www.brasileirinhosapatridas.org
(18 de agosto/2007)
CooJornal
no 542