13/05/2006
Número - 476

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


VEM AÍ A BOMBA IRANIANA


 

Enquanto a imprensa brasileira malha o governo, com pose de uma honestidade que não tem; enquanto o primeiro-ministro francês Dominique Villepin, corre o risco de perder o cargo por ter tentado puxar o tapete do seu concorrente do mesmo partido, Nicolas Sarkozi; enquanto todo mundo se prepara para o Mundial do Futebol, outra coisa mais grave e mais perigosa se passa ao lado do Iraque.

É a ameaça de uma nova guerra capaz de gerar atentados na Europa e terminar em conflito nuclear. Gente ligada em filmes de catástrofe já viu mesmo uma semelhança do sobrenome do presidente iraniano, Ahmadinejad, com aquela profecia bíblica do Armagedon, a última grande guerra mundial antes do fim de tudo, segundo o visionário João, na ilha de Patmos.

Estranho senhor Bush, responsável por ter aberto a Caixa de Pandora e desestabilizado o Oriente Médio com uma guerra baseada numa mentira (a da existência de armas de destruição maciça), acabou vítima de sua própria ideologia guerreira. Mesmo que o Irã se transforme numa ameaça com a fabricação de bomba nuclear, Bush não conseguirá mais arrastar os americanos a uma nova aventura. Apesar de ignorantes em historia e geografia, os ingênuos americanos criacionistas ainda crentes em historias de Adão e Eva, já perceberam ter sido precipitada a invasão do Iraque, cujo saldo negativo vai chegando ao três mil soldados mortos.

A sorte de Bush e de Rumsfeld é os americanos desconhecerem que os EUA, na ganância pelo petróleo e pelo controle da região, destruíram o único país laico do Oriente Médio e favoreceram o reforço do fundamentalismo islamita. Quando no futuro se explicar o declínio do império americano, uma boa dose de imbecilidade da CIA vai ser responsabilizada. Ao destruir o Iraque não religioso, os EUA criaram as condições ideais para a emergência iraniana. Quase a mesma história da criação dos mujaidins afegãos com o financiamento da resistência aos soviéticos, que, na época, queriam impedir o expansionismo do fundamentalismo islamita.

Agora, o Irã quer preparar urânio enriquecido para as centrais nucleares vendidas pela Rússia, pretexto para a fabricação da bomba nuclear. Como os iranianos já possuem mísseis de longo alcance, a preocupação não é só de Israel mas dos europeus. Ou se trata apenas de um justo desejo iraniano de entrar no clube dos países dotados do poder nuclear, sem outras intenções?

Estranha ironia – os EUA envenenaram o Médio Oriente com a destruição de um Sadam Hussein e um Iraque sem armas e vão ter de contemporizar e conviver com um Irã, em pouco tempo, potencia atômica. Resultado – os americanos irão reviver os pesadelos da guerra fria, quando dormiam mal com medo de um ataque atômico.

Quanto tempo para os iranianos fabricarem a bomba? Dois anos no máximo, dizem os especialistas. E se os EUA destruíssem os laboratórios fabricantes da bomba? Ninguém parece se arriscar a defender essa idéia, nem Rumsfeld. Seria botar fogo no planeta e, como ameaçou Ahmadinejad, o Irã exportaria dezenas de milhares de kamikases para explodirem nos países responsáveis.

Será que um embargo econômico do Irã poderá demover o presidente iraniano do objetivo atômico? Essa parece a última esperança americana e mesmo européia.

Enquanto isso se decide, como não podemos em nada interferir, vamos torcer pelo Brasil no Mundial. Porém, até essa festa corre o risco de ter momentos tensos: o presidente iraniano, que não reconhece a existência de Israel e que é negacionista, isto e, não reconhece ter havido holocausto de judeus pelos nazistas, promete ir à Alemanha torcer pela equipe iraniana. De acordo com a lei alemã, Ahmadinejad deveria ser preso ao desembarcar. E se o Irã se qualificar para jogar contra os EUA? Por enquanto, tudo está em terreno neutro: imitando o Brasil, a equipe iraniana vem treinar na Suíça, em Spiez, e a Suíça é o país mediador entre o Irã e os EUA, tanto que o Irã entregou à Suíça a carta do presidente iraniano destinada ao presidente americano Bush. O primeiro contato direto entre Irã e EUA, depois de 1979, quando o mesmo Ahmadinejad fazia parte dos jovens que invadiram e mantiveram como reféns o pessoal da embaixada americana em Teerã.


(13 de maio/2006)
CooJornal no 476


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch