Rui Martins
VEM AÍ A BOMBA
IRANIANA
|
 |
Enquanto a imprensa brasileira malha o governo, com pose de uma
honestidade que não tem; enquanto o primeiro-ministro francês Dominique
Villepin, corre o risco de perder o cargo por ter tentado puxar o tapete
do seu concorrente do mesmo partido, Nicolas Sarkozi; enquanto todo mundo
se prepara para o Mundial do Futebol, outra coisa mais grave e mais
perigosa se passa ao lado do Iraque.
É a ameaça de uma nova guerra capaz de gerar atentados na Europa e
terminar em conflito nuclear. Gente ligada em filmes de catástrofe já viu
mesmo uma semelhança do sobrenome do presidente iraniano, Ahmadinejad, com
aquela profecia bíblica do Armagedon, a última grande guerra mundial antes
do fim de tudo, segundo o visionário João, na ilha de Patmos.
Estranho senhor Bush, responsável por ter aberto a Caixa de Pandora e
desestabilizado o Oriente Médio com uma guerra baseada numa mentira (a da
existência de armas de destruição maciça), acabou vítima de sua própria
ideologia guerreira. Mesmo que o Irã se transforme numa ameaça com a
fabricação de bomba nuclear, Bush não conseguirá mais arrastar os
americanos a uma nova aventura. Apesar de ignorantes em historia e
geografia, os ingênuos americanos criacionistas ainda crentes em historias
de Adão e Eva, já perceberam ter sido precipitada a invasão do Iraque,
cujo saldo negativo vai chegando ao três mil soldados mortos.
A sorte de Bush e de Rumsfeld é os americanos desconhecerem que os EUA, na
ganância pelo petróleo e pelo controle da região, destruíram o único país
laico do Oriente Médio e favoreceram o reforço do fundamentalismo
islamita. Quando no futuro se explicar o declínio do império americano,
uma boa dose de imbecilidade da CIA vai ser responsabilizada. Ao destruir
o Iraque não religioso, os EUA criaram as condições ideais para a
emergência iraniana. Quase a mesma história da criação dos mujaidins
afegãos com o financiamento da resistência aos soviéticos, que, na época,
queriam impedir o expansionismo do fundamentalismo islamita.
Agora, o Irã quer preparar urânio enriquecido para as centrais nucleares
vendidas pela Rússia, pretexto para a fabricação da bomba nuclear. Como os
iranianos já possuem mísseis de longo alcance, a preocupação não é só de
Israel mas dos europeus. Ou se trata apenas de um justo desejo iraniano de
entrar no clube dos países dotados do poder nuclear, sem outras intenções?
Estranha ironia – os EUA envenenaram o Médio Oriente com a destruição de
um Sadam Hussein e um Iraque sem armas e vão ter de contemporizar e
conviver com um Irã, em pouco tempo, potencia atômica. Resultado – os
americanos irão reviver os pesadelos da guerra fria, quando dormiam mal
com medo de um ataque atômico.
Quanto tempo para os iranianos fabricarem a bomba? Dois anos no máximo,
dizem os especialistas. E se os EUA destruíssem os laboratórios
fabricantes da bomba? Ninguém parece se arriscar a defender essa idéia,
nem Rumsfeld. Seria botar fogo no planeta e, como ameaçou Ahmadinejad, o
Irã exportaria dezenas de milhares de kamikases para explodirem nos países
responsáveis.
Será que um embargo econômico do Irã poderá demover o presidente iraniano
do objetivo atômico? Essa parece a última esperança americana e mesmo
européia.
Enquanto isso se decide, como não podemos em nada interferir, vamos torcer
pelo Brasil no Mundial. Porém, até essa festa corre o risco de ter
momentos tensos: o presidente iraniano, que não reconhece a existência de
Israel e que é negacionista, isto e, não reconhece ter havido holocausto
de judeus pelos nazistas, promete ir à Alemanha torcer pela equipe
iraniana. De acordo com a lei alemã, Ahmadinejad deveria ser preso ao
desembarcar. E se o Irã se qualificar para jogar contra os EUA? Por
enquanto, tudo está em terreno neutro: imitando o Brasil, a equipe
iraniana vem treinar na Suíça, em Spiez, e a Suíça é o país mediador entre
o Irã e os EUA, tanto que o Irã entregou à Suíça a carta do presidente
iraniano destinada ao presidente americano Bush. O primeiro contato direto
entre Irã e EUA, depois de 1979, quando o mesmo Ahmadinejad fazia parte
dos jovens que invadiram e mantiveram como reféns o pessoal da embaixada
americana em Teerã.
(13 de maio/2006)
CooJornal
no 476