27/05/2006
Número - 478

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


A HOLANDA DO BASEADO, DOS MOINHOS
E DO RACISMO



 

Ah, a Holanda dos moinhos, das vaquinhas, dos canais, das barragens e das tulipas, agora está se transformando na Holanda das expulsões maciças de estrangeiros. Quem é árabe ou negro não tem mais a chance de ver o mercado das prostitutas de Amsterdã ou de fumar um baseado num café. Mais um pouco e volta aquela época em que os condenados e as bruxas ficavam expostos na praça pública.

Faz algum tempo, a Holanda, país de marinheiros e mulheres mandonas, se transformou no paraíso das pequenas ilegalidades, um pedaço do céu em plena terra roubada ao mar. Mas como dizem, “não há mal que sempre dure (é nossa esperança) e bem que nunca se acabe”, a Holanda se transformou num piscar de olhos num capítulo infernal na vida dos imigrantes estrangeiros.

Graças a uma mulher de rosto duro e cara fechada, a Rita Verdonk, que não tem nada a ver com a nossa Rita Lee. Criminologista e ex-diretora de presídio, a cinqüentona Rita está se saindo melhor que o suíço Christoph Blocher, e que o francês Jean-Marie Le Pen, felizmente até hoje fora do poder. Rita de Ferro, seu apelido, é ministra da Imigração e da Integração, nos Países Baixos, como também chamam a Holanda, e agora nome bem merecido porque o tranqüilo país das belas tulipas volta a ser manchete pelas baixarias de sua ministra.

A pretexto de aplicar a lei, doa a quem doer, ela age como um trator em cima dos estrangeiros. Pobres dos brasileiros que foram tentar achar um lugar ao sol, na nevoenta e úmida Holanda. Se não tinham os papéis em ordem, devem estar preparando as trouxas ou já foram expulsos sem ter tempo de pegar o que deixaram em casa.

Da fúria de Rita não escapou nem a negra Ayaan Hirst Ali, de origem somaliana, que de estrangeira exilada tinha chegado a obter a nacionalidade holandesa e mais ainda - um lugar de deputada no Parlamento. Ora, a somaliana de extraordinária inteligência, que aprendeu o idioma holandês (conhecido como gargarejo) em tempo recorde, cometeu uma falha: contou num programa de televisão ter dito algumas mentiras ao serviço de imigração ao pedir asilo na Holanda.

Imediatamente, a ministra de ferro anulou seu passaporte e Ayaan Hirsi Ali, nesta altura, já foi viver nos EUA, onde conseguiu asilo em Washington. Porém, se não tivesse obtido esse asilo, Hirsi seria expulsa para a Somália e se tivesse de ir catar papel, dona Rita estaria pouco ligando.

Dona Rita de Ferro, que está destruindo a bela imagem do país dos moinhos, da eutanásia e da pornografia livre em Amsterdã, já jogou do outro lado dos canais 26 mil estrangeiros, alguns vivendo há muitos anos na Holanda à espera de uma autorização definitiva.

E quer expulsar até um jogador de futebol do Feynoord de Roterdã, Salomon Kalou, apesar de ser um protegido pela federação holandesa, cuja intenção era de naturalizar o jogador holandês para ser incluído nesta Copa do Mundo. Deu zebra, como última alternativa, o negro Salomon entrou com recurso na justiça contra sua expulsão, mas talvez tenha de ir jogar em outro país, já em junho.

O método de dona Rita é digno do tempo da ocupação da Holanda, na Segunda Guerra, pois autoriza a vinda à Holanda de policiais dos países de onde são originários os requerentes de asilo e expulsou para Bagdá os iraquianos que esperavam um asilo na Holanda.

Rita de Ferro, apesar de detestada por muitos holandeses, e provavelmente pelos que estão lendo este artigo, não é uma exceção na Europa. Na Suíça, também idílica, o ministro da Justiçam Blocher, só não faz pior porque até agora não pôde, mas sua lei anti-imigrantes não fica longe da holandesa.

O ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozi conseguiu um lei pela qual só vai entrar na França quem for imigrante qualificado. O presidente do Mali, país africano, já protestou – “vivemos na miséria, fazemos um esforço enorme para educar e dar universidade a alguns de nossos cidadãos e é justamente com esses que a França quer ficar “.

É verdade, nenhum país rico aplica nos países favelados africanos um plano de desenvolvimento que acabaria com a emigração para a Europa. Mal comparando é a mesma história das favelas que circundam as metrópoles brasileiras. E, no fundo, sairia mais barato e seria mais seguro.


(27 de maio/2006)
CooJornal no 478


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch