17/06/2006
Número - 481

ARQUIVO  
RUI MARTINS

 

Rui Martins


E SE NOSSA EQUIPE LÁ EM CIMA FOSSE
COMO ESSA DO GRAMADO?


 

Não sou e nem tenho pretensão de ser profeta, mas de vez em quando acerto. Faz alguns meses, entrevistado por uma revista da comunidade  brasileira na Suíça (CigaBrasil) soltei a frase - "enquanto a Suíça só tiver  jogador branco nem sonhar com um Mundial. As melhores seleções são as  coloridas como a da França (não falei em Brasil porque falávamos em futebol europeu).

E não é que a seleção suíça, até hora com boas apresentações, tem dois africanos e alguns estrangeiros bronzeados?

No domingo, vendo nossos jogadores dançando e humilhando os neozelandeses, em Genebra, me veio aquela pergunta - por que não temos em  Brasília uma equipe como a da Seleção? É verdade que muita coisa já mudou nessa área. O presidente não é negro, mas veio direto do povão e, nos EUA provavelmente não seria considerado ariano.

Mas vamos falar sério. Nossa equipe de futebol é bem o espelho do nosso Brasil, autêntica. Nossa equipe de dirigentes e tecnocratas pouco coisa tem a ver com o retrato do Brasil. Imagino que torçam pela Seleção e até que joguem uma pelada no fim-de-semana, mas parecem na verdade mais gente ligada em golfo e tênis, europeus com roupa branca e servidores indo buscar a bola. Não bate, não cola.

E daí vem aquela vontade de fazer outra profecia, esperando que dê certo como deu a do futebol suíço - enquanto lá em Brasília não houver ministros e parlamentares parecidos com os jogadores do nosso selecionado e na mesma proporção, continuaremos com nossa república apartheid.

E misturando minhas duas profecias posso chegar a uma conclusão quase matemática - se as seleções brancas européias só ganham quando se misturam com estrangeiros de tons diversos, entre o moreno e negro, logo, logo só os selecionados escurinhos ganharão o Mundial. Será a emergência dos Brasis do futebol e, talvez, isso já se confirme no Mundial da África do Sul com uma  equipe campeã africana. A tal ponto que a taça Jules Rimet poderá se chamar  taça Nelson Mandela.

E por que só o futebol, se Kofi Annan, na ONU, é o exemplo do funcionário correto? Por que não um moçambicano na direção da OMS, o ex-primeiro-ministro Pascoal Mocumbi, hoje um dos diretores de um importante instituto europeu, na Holanda, de combate a doenças?

Mas continuando a falar em futebol, embora eu não seja nenhum especialista, aprendi algumas coisas, lendo aqui e ali as páginas esportivas de alguns jornais europeus. Assim, fiquei sabendo ter sido a seleção suíça a responsável pela eliminação da seleção nazista, no Mundial de 1938. A seleção alemã tinha sido reforçada com quatro jogadores austríacos, depois da anexação da Áustria por Hitler, mas deixou de fora o melhor de todos por ser judeu. Com a falta do atacante, os arianos só jogaram duas partidas e foram eliminados.

Soube também que, em 1982, a vítima foi toda uma seleção árabe. Para não deixar a Argélia se qualificar, as seleções da Alemanha e da Áustria fizeram um inexplicável resultado. O que provocou o seguinte comentário do treinador argelino Khalef - "é para nós uma honra ver duas grandes nações combinarem o resultado para nos eliminarem".


(17 de junho/2006)
CooJornal no 481


Rui Martins é jornalista, autor de "O Dinheiro sujo da Corrupção"
correspondente internacional na Suíça
ruimartins@hispeed.ch