Rui Martins
E SE NOSSA EQUIPE LÁ EM CIMA
FOSSE
COMO ESSA DO GRAMADO?
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Não sou e nem tenho pretensão de ser profeta, mas de vez em quando
acerto. Faz alguns meses, entrevistado por uma revista da comunidade
brasileira na Suíça (CigaBrasil) soltei a frase - "enquanto a Suíça só
tiver
jogador branco nem sonhar com um Mundial. As melhores seleções são as
coloridas como a da França (não falei em Brasil porque falávamos em
futebol
europeu).
E não é que a seleção suíça, até hora com boas apresentações, tem dois
africanos e alguns estrangeiros bronzeados?
No domingo, vendo nossos jogadores dançando e humilhando os
neozelandeses, em Genebra, me veio aquela pergunta - por que não temos em
Brasília uma equipe como a da Seleção? É verdade que muita coisa já mudou
nessa área. O presidente não é negro, mas veio direto do povão e, nos EUA
provavelmente não seria considerado ariano.
Mas vamos falar sério. Nossa equipe de futebol é bem o espelho do nosso
Brasil, autêntica. Nossa equipe de dirigentes e tecnocratas pouco coisa
tem
a ver com o retrato do Brasil. Imagino que torçam pela Seleção e até que
joguem uma pelada no fim-de-semana, mas parecem na verdade mais gente
ligada
em golfo e tênis, europeus com roupa branca e servidores indo buscar a
bola.
Não bate, não cola.
E daí vem aquela vontade de fazer outra profecia, esperando que dê certo
como deu a do futebol suíço - enquanto lá em Brasília não houver ministros
e
parlamentares parecidos com os jogadores do nosso selecionado e na mesma
proporção, continuaremos com nossa república apartheid.
E misturando minhas duas profecias posso chegar a uma conclusão quase
matemática - se as seleções brancas européias só ganham quando se misturam
com estrangeiros de tons diversos, entre o moreno e negro, logo, logo só
os
selecionados escurinhos ganharão o Mundial. Será a emergência dos Brasis
do
futebol e, talvez, isso já se confirme no Mundial da África do Sul com uma
equipe campeã africana. A tal ponto que a taça Jules Rimet poderá se
chamar
taça Nelson Mandela.
E por que só o futebol, se Kofi Annan, na ONU, é o exemplo do funcionário
correto? Por que não um moçambicano na direção da OMS, o
ex-primeiro-ministro Pascoal Mocumbi, hoje um dos diretores de um
importante
instituto europeu, na Holanda, de combate a doenças?
Mas continuando a falar em futebol, embora eu não seja nenhum
especialista, aprendi algumas coisas, lendo aqui e ali as páginas
esportivas
de alguns jornais europeus. Assim, fiquei sabendo ter sido a seleção suíça
a
responsável pela eliminação da seleção nazista, no Mundial de 1938. A
seleção alemã tinha sido reforçada com quatro jogadores austríacos, depois
da anexação da Áustria por Hitler, mas deixou de fora o melhor de todos
por
ser judeu. Com a falta do atacante, os arianos só jogaram duas partidas e
foram eliminados.
Soube também que, em 1982, a vítima foi toda uma seleção árabe. Para não
deixar a Argélia se qualificar, as seleções da Alemanha e da Áustria
fizeram
um inexplicável resultado. O que provocou o seguinte comentário do
treinador
argelino Khalef - "é para nós uma honra ver duas grandes nações combinarem
o
resultado para nos eliminarem".
(17 de junho/2006)
CooJornal
no 481